Crônica: Café que Custava Caro

Café que Custava Caro

✦ crônica de corrupção & codinomes ✦ o preço de um gole

Há expressões que o crime adota como quem escolhe um apelido carinhoso. “Propina” é uma palavra feia, áspera, que lembra delegacia e algema. Então, nos grupos de mensagem, nos aplicativos criptografados, nos encontros marcados com a discrição de quem sabe que está errado, a propina ganhou um nome de rotina: café.

— Bora tomar um café?

Era assim que André Mariano, o sócio-administrador da Life Educacional, referia-se ao pagamento de propina a agentes públicos. Café. Uma palavra tão inofensiva quanto o líquido escuro que milhões de brasileiros tomam todas as manhãs. Só que, neste caso, o café custava caro. Muito caro. O vice-prefeito de Hortolândia, Cafu César — e aqui o trocadilho do nome parece obra de um roteirista de humor negro —, teria recebido R$ 2,4 milhões para tomar esse café. Ou melhor, para garantir que a empresa de Mariano continuasse a vencer licitações em sua cidade.

A operação da Polícia Federal que veio a público nesta quinta-feira tem todos os ingredientes de um romance policial brasileiro: prefeituras do interior, superfaturamento, empresas de fachada, doleiros, carros de luxo, blindagem, criptomoedas. E, claro, os nomes que ligam o esquema ao círculo íntimo do poder. Porque, no Brasil, parece que toda história de corrupção acaba, mais cedo ou mais tarde, esbarrando em alguém que conhece alguém que já esteve no Planalto.

A Life Educacional foi criada com um capital social de R$ 300 mil. Em três anos, movimentou R$ 125 milhões. É uma multiplicação que faria qualquer investidor de Wall Street corar de inveja. O segredo? Vencer licitações em cidades do interior paulista — Sumaré, Hortolândia, Limeira, Morungaba — para fornecer material didático e kits de robótica. Livros que eram comprados por até R$ 5 e revendidos por R$ 60 a R$ 80. Um sobrepreço de 35 vezes em alguns casos.

A conta é simples: se você compra um livro por R$ 5 e vende por R$ 80, você não está vendendo conhecimento, está vendendo acesso. O acesso às prefeituras, aos secretários de educação, aos vereadores, ao dinheiro público. E, para garantir que esse acesso se mantivesse, era preciso pagar. Pagar o secretário, pagar o vice-prefeito, pagar o intermediário, pagar o doleiro que transformaria o dinheiro sujo em espécie limpa para ser entregue em sacolas, em envelopes, em encontros marcados nas esquinas das cidades do interior.

A PF estima que, dos R$ 125 milhões movimentados, apenas 17% foram para os fornecedores reais. O resto? Carros de luxo, blindagem, imóveis, e a tal propina que ganhou o codinome de café.

E foi nesse emaranhado de notas fiscais falsas e conversas cifradas que a investigação encontrou Carla Ariane Trindade, ex-nora do presidente Lula. Casada com Marcos Cláudio, filho adotivo de Lula, entre 1991 e 2010, Carla teria sido paga para exercer influência no Ministério da Educação. Nos diálogos apreendidos, era chamada de “amiga de Paulínia” e também de “nora”. Uma referência que, no submundo dos negócios com o poder público, funcionava como um selo de garantia: esta pessoa tem acesso.

Ao lado dela, Kalil Bittar, amigo de um dos filhos de Lula, irmão de Fernando Bittar — aquele que aparecia como dono do sítio de Atibaia nas escrituras públicas que a Lava Jato tentou, sem sucesso, provar que pertencia ao presidente. Kalil, segundo a PF, recebia mesada e um carro BMW para atuar na “prospecção de negócios”. Prospecção, neste caso, é um verbo que significa abrir portas.

A Justiça prendeu preventivamente cinco pessoas. O vice-prefeito de Hortolândia, Cafu César, foi um deles. O secretário de educação da mesma cidade, também. O ex-secretário de Sumaré, que teria compartilhado documentos de uma licitação antes mesmo de ela ser publicada, conseguiu escapar das algemas — por enquanto. O doleiro, o operador, o dono da Life: todos presos. Carla e Kalil, por ora, são investigados, não presos. Mas seus nomes estão nos autos, nas conversas, nas planilhas de controle que a PF encontrou com uma das operadoras do esquema.

A juíza que autorizou a operação, Raquel Coelho Dal Rio Silveira, escreveu algo que resume a mecânica podre desse tipo de crime: “práticas sofisticadas de lavagem de dinheiro, com o repasse de valores para empresas de fachada, atuação de doleiros e utilização de criptoativos, tudo com a finalidade de, para além do enriquecimento ilícito daqueles diretamente envolvidos, repasse de valores a terceiros, em sua maioria funcionários ou agentes públicos, que agiam para garantir a contratação da empresa LIFE por meio fraudulento”.

Traduzindo: havia uma estrutura. Não era um “café” isolado, um favorecimento pontual. Era um sistema. E como todo sistema, ele precisava de pessoas que o alimentassem — com informações, com acesso, com silêncio. E de pessoas que o protegessem — com o peso de sobrenomes que remetem ao Palácio do Planalto, ainda que indiretamente.

O caso ainda está no início. As defesas vão se manifestar, os advogados vão contestar as provas, os presos vão pedir liberdade. É o ritual. Mas o que fica, para quem lê essa notícia em uma quinta-feira qualquer, é a sensação de que o tempo, no Brasil, não passa tanto quanto se pensa. A Lava Jato foi arquivada, seus métodos questionados, seus protagonistas condenados ou absolvidos. Mas os esquemas de superfaturamento em prefeituras continuam. As empresas de fachada continuam. Os doleiros continuam. E, ao que parece, a ideia de que ter um contato no governo vale dinheiro — muito dinheiro — continua tão viva quanto nos anos em que a palavra “mensalão” foi inventada.

A única novidade, talvez, seja o codinome. Antigamente era “mensalão”, “valerioduto”, “propina”. Agora é “café”. Uma palavra cotidiana, quase doméstica. Como se corrupção pudesse ser reduzida a um hábito matinal. Como se desviar dinheiro da merenda escolar, dos livros didáticos, dos kits de robótica que deveriam ensinar crianças a programar o futuro, fosse apenas mais um item da rotina administrativa.

O café que Mariano oferecia era, na verdade, um veneno. Envenenava a confiança nas instituições, envenenava a política, envenenava a ideia de que o dinheiro público pode, um dia, ser bem gerido. E quem pagava a conta, como sempre, não estava na sala onde o café era servido. Quem pagava era a criança que recebeu um livro superfaturado, o professor que trabalhou sem material adequado, o contribuinte que viu seu imposto virar blindagem de carro de luxo.

A PF cumpriu os mandados. As algemas foram colocadas. O café, por ora, esfriou. Mas a crônica não termina com um final feliz, porque crônicas de corrupção no Brasil nunca terminam. Elas apenas aguardam o próximo capítulo, o próximo codinome, a próxima vez que alguém, em uma conversa cifrada, vai perguntar: “vamos tomar um café?”

— Crônica do café que envenenava o futuro —

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