Crônica: Carnaval (quase) Eleitoral

Crônica de um Carnaval (quase) Eleitoral

🌿 crônica de terreiro 🎺 reflexão & glitter

Há coisas neste país que só o Carnaval consegue explicar. Ou, talvez, só ele consiga confundir a ponto de exigir que a Justiça Eleitoral, de toga e martelo, se debruce sobre o que deveria ser apenas poesia, glitter e muita, muita poeira de serragem.

Na quinta-feira, 19 de março, enquanto muitos ainda guardavam as fantasias e outros já planejavam os próximos feriados, um ministro do Tribunal Superior Eleitoral fez o que a vida faz com as confetes depois da Quarta-Feira de Cinzas: varreu para o lado. O corregedor-geral, Antonio Carlos Ferreira, rejeitou o pedido do PL para investigar a participação do presidente Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói.

O pedido do partido era, digamos, uma peça de museu da política brasileira. Queria-se saber, com requintes de perícia contábil, se o desfile que homenageava o presidente — em ano eleitoral, sim — havia sido regado a dinheiro público, se a máquina administrativa havia virado alas e baterias, se ali, no meio do samba-enredo, não havia nascido um comício.

É compreensível o assombro do PL. Imagine a cena: um presidente sendo exaltado por uma escola de samba. Ele, que já foi operário, sindicalista, e que agora, em seus muitos carnavais de vida, vê sua trajetória virar enredo. Samba, orquestra, passistas. Tudo o que um palanque eletrônico jamais poderia dar. Mas será que foi isso? Ou foi apenas a consagração popular que o samba, desde sua origem, teima em oferecer a seus ídolos?

O ministro, com a frieza que o direito exige e a política muitas ignora, não entrou no mérito. Não disse se havia ou não irregularidade. Disse algo mais simples, e por isso mais profundo: que o pedido era uma espécie de pescaria com rede de arrasto. O PL queria que a Justiça vasculhasse anos de contratos, repasses, agendas, imagens de TV, tudo, como quem pede a um juiz que faça as vezes de detetive particular. “Ação probatória autônoma”, no jargão técnico, virou na decisão um sinônimo elegante para “exploração probatória”, ou, em português claro: “vocês querem usar o tribunal para pescar o quê?”

E aí reside a beleza torta da crônica. O Carnaval, por definição, é a ordem virada de pernas para o ar. É o momento em que o pobre vira rei, o rei vira bobo, e a política — essa senhora sisuda — é convidada a dançar num trio elétrico ou a desfilar de plumas e lantejoulas. É um território escorregadio para a lei seca.

Mas o Tribunal, com sua decisão, lembrou que, por mais que o Carnaval subverta hierarquias, há uma coisa que ele não pode fazer: transformar a Justiça em extensão da farra. Não se pede ao Judiciário que desfile como passista de uma pauta, recolhendo provas ao sabor do ritmo. A Justiça é, ou deveria ser, o enredo fixo, aquele que não muda conforme a batucada.

O PL, ao que parece, queria desfilar com a razão, mas entrou na avenida com um pedido que mais parecia um bloco de sujos: desorganizado, amplo, buscando arrastar quem quisesse para a investigação. O ministro, de lá do estrado, usou a palavra “cautela”. E negou.

Ficamos, então, com a imagem ambígua. De um lado, um presidente que, como tantos outros antes dele, vira samba. Isso, por si, não é ilegal. É, na verdade, um sintoma cultural do país. Do outro, um partido que levanta a suspeita de que ali, no meio da euforia, pode ter havido um cofre público aberto para saudar um candidato.

A decisão não absolve nem condena. Ela apenas devolve a confete ao chão. Não há, por ora, investigação. Mas o que resta no ar é a certeza de que, neste país, a política e o Carnaval dançam um samba de uma só nota: a da desconfiança. O TSE mandou o processo para o arquivo, mas deixou uma lição de folião: nem tudo que brilha é ouro, mas nem tudo que desfila é campanha.

E assim, enquanto a Acadêmicos de Niterói guarda seus carros alegóricos e o presidente segue sua vida para além dos holofotes da Sapucaí, a Justiça Eleitoral nos lembra que, depois da quarta-feira de cinzas, o que sobra não é só a ressaca, mas a necessidade de que até a fantasia mais luxuosa preste contas à realidade.

O Carnaval passou. O ano eleitoral, não. E o samba, esse continua aí, esperando o próximo enredo.

— Crônica escrita ao som de uma batucada & memória política —

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