W. R. Bion | Curiosidade, arrogância e estupidez

Curiosidade, arrogância e estupidez

W. R. Bion Continuação de "Ataques ao Elo de Ligação"
📘 Excerto do artigo apresentado no Congresso Internacional de 1957 (Bion, 1957) — pp. 102-103

No trabalho que apresentei no Congresso Internacional de 1957 (Bion, 1957), sugeri que a analogia que Freud estabeleceu entre a investigação arqueológica e a psicanálise era útil se considerássemos que estávamos expondo evidências não tanto de uma civilização primitiva mas de um desastre primitivo. O valor da analogia fica diminuído uma vez que, na análise, somos confrontados não tanto com uma situação estática que permite um estudo vagaroso, mas com uma catástrofe que permanece a um só tempo viva e, ainda assim, incapaz de se resolver e sossegar.

Essa ausência de progresso em qualquer direção deve ser atribuída, em parte, à destruição da capacidade de ter curiosidade e à consequente incapacidade de aprender; mas antes de entrar nisso, devo dizer alguma coisa sobre uma questão que quase não desempenha nenhum papel nos exemplos que forneci.

Os ataques ao elo de ligação têm origem na fase que Melanie Klein chama de esquizo-paranóide. Esse período é dominado por relações de objeto parcial (Klein 1948). Se tivermos em mente que o paciente tem uma relação de objeto parcial consigo mesmo, bem como com objetos que não são ele, contribui para a compreensão de expressões como "parece..." habitualmente empregada pelo paciente profundamente perturbado em ocasiões em que um paciente menos perturbado diria "eu penso" ou "eu creio". Quando ele diz "parece...", está frequentemente referindo-se a um sentimento – um sentimento de que "parece" – que é parte de sua psique e, ainda assim, não é observado como sendo parte de um objeto total.

🧠 Objeto parcial não é apenas anatomia, mas função

A concepção do objeto parcial como análogo a uma estrutura anatômica, encorajada pelo emprego que o paciente faz de imagens concretas como unidades de pensamento, é enganadora, porque a relação de objeto parcial não se dá apenas com as estruturas anatômicas mas com funções, não com a anatomia mas com a fisiologia, não com o seio mas com a amamentação, o envenenamento, o amor e o ódio. Isto contribui para a impressão de um desastre que é dinâmico e não estático.

O problema que tem de ser solucionado nesse nível inicial, ainda superficial, deve ser formulado em termos adultos através da pergunta: "O que é alguma coisa?" e não "Por que é alguma coisa?", pois o "porquê" foi excindido devido à culpa.

🔍 Implicações clínicas: Problemas cuja solução depende da percepção de causação não podem, portanto, ser formulados e, muito menos, resolvidos. Isto produz uma situação na qual o paciente parece não ter problemas, exceto os colocados pela existência do par analista-paciente.

Sua preocupação é com o que é esta ou aquela função, sobre a qual tem consciência embora seja incapaz de apreender a totalidade da qual a função é parte. A decorrência disso é não se colocar jamais a questão de por que o paciente, ou o analista, está ali, ou por que se disse, se fez ou se sentiu algo; nem tampouco poderá entrar em cogitação tentar alterar as causas de algum estado mental.

⚠️ O impasse epistemológico

Uma vez que "o quê?" nunca pode ser respondido sem o "como?" ou "por quê?", surgem mais dificuldades. Deixarei isso de lado para examinar os mecanismos empregados pelo bebê para resolver o problema do "quê?", quando experimentado em relação a um relacionamento de objeto parcial com uma função.


🎯 Síntese bioniana: A destruição da capacidade de ter curiosidade — consequência dos ataques ao elo de ligação — gera uma estupidez fundamental que impede o aprendizado com a experiência. A arrogância, por sua vez, surge como defesa contra o reconhecimento da dependência e da necessidade de um objeto que possa sustentar o pensamento. O trabalho analítico, nesse contexto, deve restaurar a possibilidade de formular perguntas, especialmente o "o quê?" e o "por quê?", reconstituindo os elos de ligação destruídos.

“A catástrofe permanece a um só tempo viva e, ainda assim, incapaz de se resolver e sossegar.” — W. R. Bion

[pp. 102-103 da edição brasileira]

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