📋 Avaliação do Paciente · Entrevista Psiquiátrica no Hospital Geral

🩺 Avaliação do Paciente

Neury José Botega · Paulo Dalgalarrondo
Entrevista e exame psiquiátrico no hospital geral

A avaliação psiquiátrica do paciente internado em hospital geral possui nuanças especiais, condicionadas pelo ambiente hospitalar, comorbidades e trabalho cooperativo com a equipe assistencial. Em emergências, há menos tempo, pouca privacidade e menor possibilidade de relatos confiáveis. A entrevista precisa ser mais estruturada, e o exame, minucioso e prontamente realizado. Este capítulo aborda instrumentos de avaliação: entrevista, exame psíquico, exame físico, escalas padronizadas e exames complementares.

🎤 Entrevista

A entrevista nunca deve ser um ato mecânico ou rotineiro. É o principal instrumento de trabalho em saúde mental. Realizada com arte e técnica, provê informações valiosas para diagnóstico e permite uma intervenção terapêutica exitosa.

O paciente sabe que será avaliado por um psiquiatra? O psiquiatra deve insistir para que o paciente seja comunicado pelo médico assistente e consinta com a avaliação. A falha nessa comunicação permite levantar hipóteses sobre dificuldades na relação médico-paciente.

Antes de começar, informe-se com o médico assistente sobre o quadro clínico e o que o psiquiatra pode ajudar. Isso facilita a interação com a equipe e o paciente. Sempre que possível, revise o prontuário e entreviste familiares e membros da equipe.

🚪 Iniciando a entrevista

Apresente-se, pergunte o nome do paciente e se ele sabe por que está sendo avaliado. Se não souber, explique com tato as razões dadas pelo médico assistente. Deixe claro que as informações serão compartilhadas com a equipe.

Comece pela história da moléstia atual, observando como o paciente relata. Depois de uma fase de aproximação, permita uma fala mais livre, que tem valor catártico e permite avaliar personalidade e conflitos.

Após a exposição livre, preencha as lacunas com perguntas dirigidas. Pacientes com dor sem causa orgânica podem se sentir menosprezados; outros podem simular ou dissimular sintomas. Quando o paciente não pode relatar, busque fontes secundárias com cautela.

A postura física, o olhar atencioso e a comunicação não verbal são cruciais. O psiquiatra pode inicialmente ser recebido com aborrecimento; reforce que o objetivo é ajudar na melhora geral e na reabilitação.

Na fase inicial, o paciente pode usar defesas (risos, silêncios, críticas). Lembre-o educadamente do objetivo da entrevista. A segunda entrevista costuma ser ainda mais importante, pois o paciente já percebe a disponibilidade genuína do profissional.

🔒 O sigilo

O princípio do sigilo garante que informações não serão divulgadas sem consentimento. Na interconsulta, esclareça que dados imprescindíveis ao tratamento serão compartilhados com o médico assistente, evitando conflitos na tríade médico-paciente-psiquiatra. Se uma relação terapêutica distinta se estabelecer depois (ex.: psicoterapia), a confidencialidade deve ser rediscutida.

🏥 Limitações do ambiente hospitalar

Busque privacidade e segurança. Se possível, leve o paciente a uma sala reservada. Em emergências, o local deve ser seguro para pacientes agitados. Na maioria das vezes, a entrevista ocorre no leito; sente-se próximo, fale baixo. Em algumas situações (ex.: avaliação de capacidade para recusar tratamento), o médico assistente pode estar presente.

🎙️ O estilo da entrevista

A entrevista deve ser empática e útil. A habilidade do entrevistador revela-se pelas perguntas que faz e evita, e por quando calar ou falar.

Ouvir o paciente tem valor terapêutico. Na primeira parte, ajude-o a se expressar livremente com escuta ativa. O Quadro 9.1 resume as "três regras de ouro".

📌 QUADRO 9.1 – As três regras de ouro da entrevista psiquiátrica

  1. Pacientes organizados (inteligência normal, fora de estado psicótico): entrevista mais aberta, permitindo que falem fluentemente.
  2. Pacientes desorganizados (nível intelectual baixo, psicóticos, ansiosos): entrevista mais estruturada, com perguntas simples e dirigidas.
  3. Nos primeiros contatos com tímidos, ansiosos ou paranoides: comece com perguntas neutras (nome, profissão) e depois avance para temas mais sensíveis ("o mingau quente se come pela beirada").

Tipos de perguntas: abertas, alternativas, sugestivas passivas ou ativas. Prefira perguntas curtas e de fácil compreensão. Evite instrumentos excessivamente estruturados.

📌 QUADRO 9.2 – Tipos de perguntas

TipoExemplo
Pergunta aberta"Como se encontra seu estado de ânimo?"
Pergunta alternativa"O senhor está alegre ou triste?"
Pergunta sugestiva passiva"O senhor está triste?"
Pergunta sugestiva ativa"O senhor está triste, não está?"

Reformular o que o paciente diz ajuda-o a clarear sua experiência. Perguntas sobre ideação suicida, feitas com respeito, não induzem ao ato; ao contrário, têm efeito terapêutico.

Quando a fala está impossibilitada, use pranchetas, tablets ou cartões com letras. Se houver barreira de idioma, busque um intérprete neutro.

Profundidade e objetividade: não force explicações psicológicas precoces. A maioria dos pacientes com sintomas físicos sem explicação negará eventos desencadeantes. Identifique estresses imediatos e preocupações conscientes. Evite confrontar ou interpretar conflitos inconscientes no hospital geral.

Os sentimentos contratransferenciais (curiosidade, raiva, tédio, etc.) são instrumentos semiológicos valiosos.

⚠️ Uma armadilha: “orgânico ou psíquico”?

Pacientes psiquiátricos têm maior risco de doenças físicas, e pacientes clínicos têm maior risco de sintomas mentais. O psiquiatra deve reconhecer tanto repercussões psicológicas do adoecimento quanto quadros orgânicos subjacentes.

📌 QUADRO 9.3 – Algumas doenças que provocam sintomas psiquiátricos

CategoriaExemplos
CardiovascularesIsquemia, arritmias, prolapso mitral
RespiratóriasDPOC, embolia pulmonar, asma
NeurológicasAVC, epilepsia, tumores, demências, Parkinson, esclerose múltipla
EndócrinasCushing, tireoideopatias, feocromocitoma, diabetes
ReumáticasArtrite reumatoide, lúpus, fibromialgia
NutricionaisAnemia, deficiências de tiamina, B12, folato
OutrasInfecções, tumores, intoxicações, abstinências

Sintomas psiquiátricos podem ser a primeira manifestação de patologia física, especialmente após os 45 anos ou na ausência de história pessoal/familiar de transtorno mental. A avaliação deve seguir a hierarquia: doenças orgânicas → reações emocionais → transtornos psiquiátricos crônicos.

📌 QUADRO 9.4 – Indicadores que sugerem transtorno mental orgânico

  • Surgimento após 45 anos
  • No curso de doença orgânica
  • Após drogas psicoativas
  • Sem desencadeantes psicossociais
  • História de abuso de substâncias
  • Distúrbios neurológicos/endócrinos
  • TCE
  • Polifarmácia
  • História familiar de doença degenerativa
  • Alteração do nível de consciência
  • Flutuação do estado mental
  • Alucinações visuais/táteis/olfativas
  • Irritabilidade exacerbada
  • Labilidade afetiva
  • Sinais neurológicos focais
  • Convulsão, estupor, catatonia
  • Disfunção subcortical/cortical

📌 QUADRO 9.5 – Transtornos neurológicos, segundo tempo de evolução

Tempo de evoluçãoDoença provável
Horas a diasAVC, encefalopatia tóxico-metabólica
Dias a semanasHematoma subdural, meningite fúngica, neoplasias
Semanas a mesesCreutzfeldt-Jakob, demência-AIDS, encefalite límbica
Meses a anosAlzheimer, Lewy, atrofia corticobasal, PSP, demências frontais, Huntington, vascular, hidrocefalia de pressão intermitente

Médicos tendem a não ligar manifestações mentais a problemas orgânicos, rotulando-as como "funcionais". O psiquiatra não deve desprezar a base somática, mas sua permanência no caso depende da possibilidade de contribuir terapeuticamente, não apenas da etiologia.

📝 Anamnese

O roteiro de anamnese psiquiátrica na interconsulta inclui itens de especial interesse (Quadro 9.6).

📌 QUADRO 9.6 – Anamnese psiquiátrica em interconsulta

ItemDescrição
IdentificaçãoConjugal, escolaridade, ocupação, religião, nível socioeconômico
Motivo da internação e HMADiagnóstico, sintomas, limitações, tratamento, repercussões
Interrogatório complementarSintomas de outros sistemas
Antecedentes mórbidosDoenças, acidentes, tentativas de suicídio, internações, reações a medicamentos
Hábitos e estilo de vidaUso de drogas, vida social, família, lazer
Antecedentes familiaresDoenças crônicas, psiquiátricas, suicídio
História de vidaInfância, adolescência, vida adulta, velhice
Aspectos psicossociaisAcontecimentos relevantes, enfrentamento da doença, rede de apoio

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