🧬 Exame Psíquico
O exame psíquico, ou exame do estado mental atual, é um pilar da avaliação em psiquiatria. Embora seja necessário estudar analiticamente as funções psíquicas isoladas, a separação da vida mental em compartimentos é artificial. Não existem funções psíquicas isoladas: é sempre a pessoa na sua totalidade que adoece. As funções perturbadas indicam transtornos subjacentes, ligados à personalidade como um todo, atingida na sua estrutura e no seu modo de existir.
O exame deve ser realizado e descrito de forma sistemática, seguindo a ordem proposta a seguir.
Verificar atentamente: cuidado pessoal, higiene, trajes, postura, mímica e atitude global durante a entrevista.
Estado normal: vigil ou desperto.
Alterações quantitativas: obnubilação, torpor, sopor, coma.
Alterações qualitativas: estado crepuscular, estado dissociativo (histérico), estado hipnótico.
Pacientes aparentemente despertos, mas perplexos e com dificuldade de apreensão do ambiente, podem estar em delirium.
Orientação alopsíquica: tempo e espaço.
Orientação autopsíquica: quanto a si mesmo.
A desorientação temporoespacial é comum em delirium, apatia intensa (depressões graves), demência e desorganização mental grave (esquizofrenia, mania).
Normoprosexia: funcionamento normal.
Hipoprosexia: diminuição global da atenção/concentração.
Tenacidade: capacidade de manter o foco.
Vigilância: capacidade de mudar o foco flexivelmente.
Na síndrome maníaca observa-se hipotenacidade e hipervigilância (distraibilidade).
Avaliar: imediata, recente, remota; memória de fixação (percepção, registro, fixação) e de evocação.
Amnésias orgânicas: menos seletivas, retroanterógradas, prejudicam mais a fixação.
Amnésias psicogênicas: mais seletivas, ligadas a conteúdos autobiográficos.
Quadros demenciais sempre cursam com algum grau de dificuldade mnêmica.
- Ilusão: percepção deformada de um objeto real.
- Alucinação: percepção sem objeto real, vinda de fora, nítida e corpórea.
- Pseudoalucinação: percebida como vinda da “cabeça”, sem nitidez sensorial.
Alucinações visuais → mais associadas a etiologia orgânica. Alucinações auditivas → mais frequentes em psicoses funcionais (esquizofrenia, mania, depressão psicótica).
Avaliar curso (velocidade e fluidez), forma (estrutura) e conteúdo (temas).
Lentificação: síndromes depressivas, delirium, demências.
Aceleração: síndromes maníacas.
Desorganização: fuga de ideias, afrouxamento de associações, descarrilhamento, desagregação, pensamento confusional.
Alterações orgânicas: afasias, alexias, agrafias.
- Afasia de Broca (expressão): ↓ fluência, erros gramaticais, compreensão preservada.
- Afasia de Wernicke (compreensão): fluência normal/aumentada, fala incompreensível, sem compreensão.
Alterações psiquiátricas: bradifasia, loquacidade, logorreia, mutismo, perseverações, ecolalia, mussitação, pararrespostas, neologismos.
Diferenciar: erro simples, crença cultural, delírio.
Ideias prevalentes: superestimação afetiva.
Ideias obsessivas: egodistônicas, percebidas como absurdas.
Descrever o delírio: simples/complexo, sistematizado ou não, grau de convicção, extensão, pressão para agir e resposta afetiva.
Humor basal: depressivo, eufórico, irritado, exaltado, pueril, ansioso, apático, hipomodulado ou aplainado.
Labilidade/incontinência afetiva → possível quadro psico-orgânico.
Perplexidade patológica (estranhamento do mundo) frequente em psicoses agudas.
Avaliar fobias (simples, social, agorafobia) e crises de pânico.
Fases: intenção/propósito, deliberação, decisão, execução.
Atos impulsivos: "curto-circuito" volitivo.
Hipobulia/abulia: redução da vontade.
Diferenciar atos impulsivos de compulsões. Investigar automutilação, heteroagressividade, ideação suicida/homicida, parafilias, negativismo.
Lentificação ou aceleração. Estereotipias motoras, maneirismos, ecopraxias.
Agitação psicomotora: classificar (maníaca, confusional, paranoide, oligofrênica, epiléptica, sociopática).
Estupor: classificar (depressivo, catatônico, psicogênico, orgânico).
Deficiência intelectual leve: escolaridade até 7º/8º ano, independência, dificuldade com abstrações e leitura/escrita.
Deficiência intelectual moderada: até 3º ano, tarefas práticas simples estruturadas.
Um vocabulário rico e construções frasais elaboradas praticamente excluem deficiência intelectual significativa.
Descrever os traços estáveis ao longo da vida, após a adolescência. O padrão de ser, sentir e reagir nas relações interpessoais é o que conta.
Não se basear apenas no momento da entrevista (sob estresse da doença/hospitalização); valorizar o relato do paciente e de pessoas próximas.
📋 Registro final
Devem ser registrados os sentimentos contratransferenciais, a capacidade crítica do paciente em relação aos sintomas e comportamentos, e o desejo de ser ajudado.
Súmula do exame: o relato deve ser pormenorizado, mas não prolixo — detalhado no essencial e conciso no secundário, com linguagem simples e precisa.
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