Santo Agostinho
"Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração vive inquieto enquanto não descansar em Ti." — Confissões, I, 1
Quem foi Santo Agostinho?
Aurélio Agostinho (354-430 d.C.) foi um dos mais importantes filósofos e teólogos do cristianismo primitivo. Bispo de Hipona (norte da África), suas obras marcaram a transição do pensamento antigo para o medieval. Influenciado por Platão, Agostinho desenvolveu uma filosofia política baseada na relação entre a Cidade de Deus (Civitas Dei) e a Cidade Terrena (Civitas Terrena).
As Duas Cidades
Para Agostinho, a história humana é marcada pelo conflito entre duas cidades espirituais:
Cidade de Deus (Civitas Dei)
Composta pelos que vivem segundo o amor a Deus (amor Dei). É a comunidade dos eleitos, dos que buscam a salvação. Sua verdadeira pátria é o céu.
Cidade Terrena (Civitas Terrena)
Composta pelos que vivem segundo o amor a si mesmos (amor sui). É a cidade dos homens, marcada pelo pecado, pela ganância e pela busca do poder temporal.
O Direito Divino de Governar
Agostinho desenvolveu uma teoria política que fundamenta o poder dos governantes na vontade de Deus. Para ele:
- Todo poder vem de Deus — "Não há autoridade que não venha de Deus" (Romanos 13,1). Até os maus governantes são permitidos por Deus como punição pelos pecados do povo.
- O governante justo é aquele que governa segundo a lei divina — seu poder é legítimo quando usado para promover o bem comum e a justiça.
- O tirano governa sem justiça — seu poder é abusivo, mas ainda assim permitido por Deus como castigo.
- A verdadeira felicidade do governante não está no poder terreno, mas na salvação eterna.
Influência na Idade Média
A teoria agostiniana fundamentou o chamado direito divino dos reis durante a Idade Média. Monarcas europeus justificavam seu poder como uma delegação direta de Deus. A Igreja, porém, reivindicava a supremacia espiritual sobre o poder temporal — o papa poderia depor reis hereges ou tiranos. Essa tensão entre poder espiritual (Igreja) e poder temporal (Reis) marcou toda a política medieval.
Legado e Críticas
O pensamento de Agostinho influenciou profundamente a filosofia política ocidental:
- Tomás de Aquino — retomou e sistematizou a relação entre lei divina e lei humana.
- Reis absolutistas — usaram a teoria do direito divino para justificar o poder absoluto (Jaime I da Inglaterra, Luís XIV).
- Críticas iluministas — Voltaire, Rousseau e Locke rejeitaram a fundamentação teológica do poder, defendendo a soberania popular.
Principais Obras
- A Cidade de Deus (426 d.C.) — Sua obra-prima da filosofia política e teológica.
- Confissões (400 d.C.) — Autobiografia espiritual e filosófica.
- O Livre Arbítrio — Sobre a origem do mal e a liberdade humana.
- A Doutrina Cristã — Fundamentos da interpretação bíblica.
A relação entre Igreja e Estado segundo Agostinho
|
Poder Espiritual (Igreja) - Governa as almas - Baseado na graça divina - Busca a salvação eterna - Superior em dignidade |
Poder Temporal (Estado) - Governa os corpos e bens materiais - Baseado na lei humana - Busca a paz e a ordem social - Deve servir à Igreja |
Para Agostinho, o Estado ideal é aquele que reconhece sua subordinação à lei divina e que auxilia a Igreja na missão de salvação das almas. Essa visão de "Cristandade" dominou o Ocidente por mais de mil anos.
0 Comentários