Superego
O desenvolvimento inicial do superego é efetivado por esse tipo de funcionamento mental, de um modo que devo agora descrever. Como afirmei, o elo de ligação entre o bebê e o seio depende da identificação projetiva e da capacidade de introjetar a identificação projetiva.
Caso o seio seja sentido como fundamentalmente compreensivo, ele será transformado, pela inveja e pelo ódio do bebê, num objeto cuja voracidade devoradora tem como objetivo a introjeção das identificações projetivas do bebê, com a finalidade de destruí-las. Isso pode aparecer na crença do paciente de que o analista se esforça, através da compreensão do paciente, em levá-lo à loucura.
🧬 O superego severo e destrutivo
O resultado é um objeto que, uma vez instalado no paciente, exerce a função de um superego severo e destrutivo em relação ao ego. Esta descrição não é precisa se aplicada a qualquer objeto na posição esquizo-paranoide, porque pressupõe um objeto total.
A ameaça que um tal objeto total acarreta contribui para a incapacidade, descrita por Melanie Klein e outros (Segal 1950), do paciente psicótico em fazer face à posição depressiva e aos desenvolvimentos que a acompanham.
A falha no processo de continência — a incapacidade da mãe (ou do analista) de receber e metabolizar as identificações projetivas do bebê — transforma o objeto bom, originalmente compreensivo, em um objeto persecutório interno. Esse objeto, instalado no psiquismo, assume as funções de um superego arcaico e sádico, que ataca a curiosidade, a capacidade de pensar e os próprios elos de ligação.
Para o paciente psicótico, a posição depressiva — que implica o reconhecimento da totalidade do objeto e a capacidade de reparação — torna-se inatingível. O mundo interno permanece povoado por objetos bizarros, fragmentos persecutórios que perpetuam um estado de terror e paralisia do pensamento.
“O superego primitivo, na obra de Bion, não é apenas um juiz moral, mas um algoz que destrói a própria possibilidade de estabelecer vínculos significativos com a realidade interna e externa.”
📚 Referência cruzada
Conforme Bion desenvolve em Segundos Pensamentos, a restauração analítica da capacidade de continência — permitindo que as identificações projetivas sejam recebidas, metabolizadas e devolvidas de forma tolerável — é o caminho para a transformação desse superego persecutório em uma estrutura psíquica capaz de pensar e de aprender com a experiência.
“Caso o seio seja sentido como fundamentalmente compreensivo, ele será transformado, pela inveja e pelo ódio do bebê, num objeto cuja voracidade devoradora tem como objetivo a introjeção das identificações projetivas do bebê, com a finalidade de destruí-las.”
— W. R. Bion, Ataques ao Elo de Ligação
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