🧪 Alucinógenos
Aspectos clínicos, históricos e farmacológicos
Daniel Cruz Cordeiro
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Alucinógenos

Histórico • Definição • Classificação • Aspectos clínicos
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📖 Introdução

Há milênios, os alucinógenos vêm desempenhando diversos papéis na sociedade. No passado, algumas culturas os usavam em rituais de cura e espiritualidade, e hoje observamos a venda desses mesmos alucinógenos pela internet transformando-se em importante problema de saúde pública.

Neste exato momento, alguém deve estar usando uma dessas substâncias na busca da "cura" da dependência química, do câncer ou de tantos outros males ou, mesmo, do autoconhecimento, de uma espiritualidade nunca antes sentida ou pelo simples desejo de uma experiência psicodélica recreativa. Do sintético à dietilamida do ácido lisérgico (LSD), que já foi usada em pacientes durante o processo psicoterapêutico, e à natural ibogaína, que voltou a ser motivo de discussão na comunidade científica, vamos entrar, neste capítulo, no universo das alucinações produzidas por esses agentes perturbadores do sistema nervoso central (SNC).

1 Histórico

Plantas com propriedades alucinógenas vêm sendo usadas pela humanidade com diferentes finalidades em épocas e locais diversos. Os egípcios as usavam para obter estados de inconsciência no alívio da dor; os gregos, para entorpecer vítimas de assaltos; e, na Europa da Idade Média, mulheres consideradas bruxas produziam unguentos e poções que provocavam diversas alterações de percepção, como sensação de levitação, visões, sono profundo e embriaguez.

O desenvolvimento de drogas alucinógenas sintéticas produziu um aumento no consumo desse tipo de substâncias, em especial no período da contracultura, entre 1960 e 1970. Nos dias atuais, o consumo entre adolescentes e adultos jovens tem novamente aumentado.

Nos Estados Unidos, o número de novos usuários aumentou significativamente, de 200 mil, em 2003, para 377 mil, em 2010, e os atendimentos de emergência pelo uso dessas drogas duplicaram – de 5.296 casos, em 2004, para 10.607, em 2009.

A venda de alucinógenos pela internet vem ocorrendo há décadas e apresentou um crescimento progressivo devido a descontos, ações de baixo monitoramento, rapidez e facilidade de aquisição. Muitos sites têm servido para a troca de informações, busca e oferta dessas substâncias. Nesses espaços, há informações sobre alucinógenos naturais e sintéticos que ainda não foram descritos na literatura científica. É possível identificar locais onde encontrar alucinógenos naturais, informar-se sobre épocas de colheita, fornecer alucinógenos para venda e kits de cultivo, obter receitas de como extrair os princípios ativos e aprender os modos de uso.

⚠️ Atenção: A internet também serve para agenciar viagens e oferecer pacotes turísticos para locais onde o consumo de alucinógenos é permitido em contextos religiosos, como Colômbia, México e, até mesmo, o Brasil. Poucos sites oferecem informações consistentes sobre a substância, seu uso cauteloso e implicações.
2 Definição e classificação
Definição: Alucinógenos são agentes químicos que induzem alterações na percepção, no pensamento e nos sentimentos. Produzem sintomas que lembram quadros de psicoses funcionais, sem causar os prejuízos cognitivos dos transtornos mentais orgânicos.

Classificação: Os alucinógenos podem ser classificados, quanto a sua origem, em naturais e sintéticos.

3 Aspectos clínicos

Acredita-se que o uso de substâncias alucinógenas esteja intimamente ligado à história do homem, sendo empregadas para fins místicos, religiosos ou ritualísticos. Em vários continentes e diferentes culturas, estiveram presentes em rituais religiosos, consumidas como forma de obtenção de conhecimentos ou mesmo como acesso à imortalidade espiritual. Eram extraídas de plantas e usadas como bebidas, fumos ou rapés.

Com o decorrer dos séculos, muitas dessas substâncias perderam seu papel sagrado e passaram a ser consumidas apenas por seus efeitos alucinógenos. Entre os vegetais mais conhecidos com tais propriedades, estão ayahuasca; beladona; alguns cogumelos, como Amanita muscaria e Claviceps purpúrea; plantas, como Datura stramonium, ibogaína, jurema, mandrágora, paricá, peiote e sálvia; alucinógenos sintéticos, como LSD e DOM; anfetaminas psicodélicas, como MDA e NBOMe; e anestésicos psicodélicos, como PCP e cetamina.

🌿 Ayahuasca
Outros nomes: hoaska, yagé, kamarampi, caapi, natema, pindé, kahi, mihi, dapa, nixi pae
Nome científico: Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis
Princípio ativo: β-carbolinas harmina, harmalina e tetra-hidro-harmina e N,N-dimetiltriptamina (DMT)

Essa substância alucinógena vem sendo usada há milênios pelas populações indígenas da Amazônia Ocidental em rituais religiosos e na prática de sua medicina. Atualmente, cerca de 70 etnias indígenas da Amazônia utilizam a bebida em suas celebrações e cultos. O termo ayahuasca pertence à língua quíchua (de origem peruana) e é formado pela junção de duas palavras, aya (espírito, alma, morto) e waska (cipó, corda ou vinho). A tradução literal seria algo como "cipó dos espíritos", "corda dos mortos" ou "vinho dos mortos".

É obtida por meio do cipó-mariri (Banisteriopsis caapi) fervido com folhas de diferentes plantas, em geral da chacrona (Psychotria viridis), resultando em bebidas usadas, no passado, em práticas xamanísticas e, mais recentemente, em cultos surgidos do sincretismo de outras religiões, como as cristãs, kardecistas, indígenas e afro-brasileiras.

O princípio ativo das folhas é o alcaloide N,N-dimetiltriptamina (DMT), que atua nos receptores serotonérgicos 5-HT1. A ação do DMT é possível apenas por meio da neutralização da enzima intestinal e hepática monoaminoxidase (MAO), que ocorre com a ação de substâncias contidas no cipó, os alcaloides β-carbolinas harmina, harmalina e tetra-hidro-harmina. Sem a presença de β-carbolinas, o DMT seria degradado pela MAO.

Em 20 mL de chá de ayahuasca são encontrados cerca de 25 mg de DMT, 30 mg de harmina e 10 mg de tetra-hidro-harmina. Entre os efeitos alucinógenos mais observados, estão alucinações visuais de animais e de seres místicos, como divindades e demônios, e sensação de levitação ou voo e de ser transformado em algum animal ou em outra pessoa. Os principais efeitos colaterais são sensação de euforia (com ou sem irritabilidade), vertigem, náuseas, vômitos, diarreia, taquicardia, tremores, midríase.

💡 Religiões: Várias religiões que utilizam o chá da ayahuasca vêm surgindo desde a primeira metade do século passado. A mais conhecida é o Santo Daime, criada no Acre pelo seringueiro Raimundo Irineu Serra (o mestre Irineu). Ele conheceu, na região de fronteira com o Peru, rituais indígenas e de mestiços (no Brasil chamados de pajelança) que usavam esse chá como forma de contato com seres divinos. O Santo Daime foi criado na periferia de Rio Branco em 1930. Em 1945, uma segunda religião surgiu, também em Rio Branco, criada por Daniel Pereira de Mattos, chamada de Barquinha. Em 1961, foi criada, por José Gabriel da Costa, uma terceira religião, conhecida como União do Vegetal (UDV).

Uso medicinal: Nos últimos anos, o potencial terapêutico da ayahuasca vem sendo estudado, tendo sido reveladas diversas possibilidades, como efeitos sobre a ansiedade e sobre quadros depressivos, estes últimos com melhora após a administração de apenas uma dose. Outras possibilidades de uso medicinal seriam no tratamento das dependências químicas e de transtornos da personalidade do tipo impulsivo. No entanto, como qualquer substância com potencial para uso farmacológico, são necessários mais estudos sobre a ayahuasca para obtenção de doses mais efetivas, segurança, tolerabilidade e eficiência em usos mais prolongados.

🌸 Beladona
Outros nomes: erva-do-diabo, erva-moura-mortal, meimendro, deadly nightshade
Nome científico: Atropa belladonna
Princípio ativo: atropina e escopolamina – alcaloides tropânicos, alucinógenos anticolinérgicos

Uma série de plantas tem a atropina em sua constituição, mas a beladona é uma das mais populares. O termo "beladona" é proveniente da palavra italiana belladonna (bela mulher). O médico Pietro Andrea Mattioli (1501-1577) descreveu o costume que mulheres de Veneza tinham de pingar a tintura de atropa nos olhos, provocando dilatação das pupilas, o que, na época, era sinônimo de beleza.

O termo "atropina" foi dado pela nomenclatura botânica em lembrança a um ser da mitologia grega, a Átropos, uma das três mulheres que tinham a função de fiar, decidir o tamanho e a qualidade do fio da vida e cortá-lo. Esse nome lembra os potenciais efeitos letais associados ao uso de doses maiores de atropina, que seria a droga que cortaria o fio da vida.

Essa planta é encontrada do norte da África ao Oriente Médio, passando pelo sul da Europa. Pode chegar a 2 metros de altura, e todas as suas partes possuem o alcaloide, das raízes às folhas e flores, em forma de sino e com coloração violácea, mas a maior concentração é encontrada nos frutos redondos e roxos brilhantes.

Já era conhecida por suas propriedades entre os egípcios, gregos e romanos. Na Idade Média, foi um dos principais ingredientes usados pelas bruxas na Europa, que associavam o sumo dos frutos da beladona a outras plantas alucinógenas para fazer os unguentos de feitiçarias. Elas untavam objetos que eram colocados entre as pernas e, assim, a substância era absorvida com mais rapidez pela mucosa vaginal e anal. As feiticeiras sentiam que estavam voando.

⚠️ Efeitos: Os alcaloides presentes na beladona têm algumas características que os diferenciam dos demais alucinógenos. São muito tóxicos e capazes de provocar amnésia, sono profundo, coma e morte. Essa substância inibe a ação da acetilcolina, produzindo efeitos que dependerão da dose de atropina usada. Os efeitos apresentados por pacientes com quadros de intoxicação eram, em geral, caracterizados como "quente como uma lebre, cego como um morcego, vermelho como uma beterraba, seco como um osso e louco como uma galinha".

Uso medicinal: O sulfato de atropina tem várias indicações: medicação pré-anestésica, tratamento de arritmias, de hipermotilidade do aparelho geniturinário, do parkinsonismo, tratamento e profilaxia de intoxicações por inibidores da colinesterase e como coadjuvante no tratamento da úlcera péptica e de doenças espásticas do trato gastrintestinal e biliar.

🍄 Cogumelos alucinógenos
Outros nomes: magic mushrooms
Nome científico: Psilocybe, Conocybe, Panaeolus, Stropharia, Pluteus; Amanita muscaria e Claviceps purpurea
Princípio ativo: psilocibina (e psilocina), muscarina e ergotamina

Existem aproximadamente 10 mil espécies de cogumelos, sendo que cerca de 200 apresentam capacidades alucinógenas. Ao longo dos séculos e em diversas culturas, eles vêm sendo usados em rituais religiosos (como ocorreu com povos da América do Norte e Central) ou para a obtenção de seus efeitos psicotrópicos como meio de recreação (o que vem ocorrendo na cultura ocidental moderna atual).

Psilocybe, Conocybe e Panaeolus eram considerados sagrados e chamados de teonanacatl (carne de Deus) pelos astecas. Com a chegada dos espanhóis, seu consumo foi proibido pela Igreja Católica.

Os cogumelos são ingeridos frescos ou secos. As formas secas são usadas em cigarros, fumadas em cachimbo ou usadas em forma de cápsulas. Há relatos de sua ingestão com mel, leite, carnes, chás e sopas. O tempo de ação dependerá de circunstâncias diversas, como concentração do alucinógeno e presença de alimentos no estômago.

Após ingerida, a psilocibina sofre ação de fosfatases alcalinas e esterases na mucosa do intestino, sendo transformada em psilocina. Esta, por sua vez, sofre ação de monoaminoxidases e da aldeído desidrogenase, sendo transformada em 4-hidroxi-indol-acetaldeído (4-HIA). A psilocibina e a psilocina têm estruturas análogas à da serotonina (5-hidroxitriptamina) e estimulam o sistema nervoso autônomo, agindo em receptores 5-HT2.

✨ Curiosidade: Em 1938, Albert Hoffman isolou a psilocibina para ser usada como medicação para diferentes enfermidades, como alcoolismo e delinquência juvenil. Timothy Leary, famoso psicólogo de Harvard, iniciou seus estudos e pesquisas com alucinógenos consumindo cogumelos e, posteriormente, LSD. Ajustadas as doses, os cogumelos produzem os mesmos efeitos do LSD, mas a ação deste é 100 a 200 vezes mais potente.

Uso medicinal: Até o momento, nenhum medicamento contendo compostos dos cogumelos alucinógenos foi lançado pela indústria farmacêutica. Entretanto, existem estudos relatando que compostos contendo Psilocybe teriam potencial para um dia serem usados de forma terapêutica no tratamento de uma série de doenças e transtornos, como enxaquecas, transtorno obsessivo-compulsivo e quadros depressivos, e dores relacionadas ao câncer.

🌺 Datura
Outros nomes: saia branca, zabumba, trombeta de anjo, trombeteira, lírio
Nome científico: Datura inoxia, Datura metel, Datura stramonium, Datura suaveolens
Princípio ativo: escopolamina, hioscina e atropina

A datura é uma das mais difundidas e usadas plantas alucinógenas do mundo. Nasce em vários lugares e tem ampla distribuição, diversos nomes e modos de ser consumida. O nome chá de lírio vem da semelhança de sua flor com a do lírio. No passado, em diversos países, como China e México, serviu como analgésico para as dores do parto ou para aumentar a capacidade de intoxicação de bebidas, como em alguns países africanos. Também era usada para aliviar sintomas de doenças respiratórias, como a asma.

É uma das plantas com potencial alucinógeno que foi incorporada no sincretismo das religiões afro-brasileiras. Segundo essas crenças, a datura é pertencente ao orixá Iansã. Seu consumo é feito por meio do fumo ou da ingestão de chá, feito com infusão de folhas.

Recentemente, na cultura ocidental, a datura passou a ser usada como droga recreativa por sua capacidade de produzir alucinações, resultando em quadros comatosos e mesmo morte. O quadro de intoxicação se assemelha ao produzido pela beladona, por terem princípios ativos semelhantes, encontrados em todas as partes da planta, com maior concentração nas raízes e sementes.

⚠️ Atenção: Pequenas quantidades de sementes de datura (cerca de meia colher de chá) têm quantidades suficientes de atropina (0,1 mg) para causar parada cardiorrespiratória. Os adolescentes, em especial os do gênero masculino, são os que mais apresentam casos de intoxicação.

Uso medicinal: Em alguns países, a datura é usada na medicina tradicional por meio de folhas e extratos para o alívio de feridas, lesões, sangramentos e dor. O suco das pétalas da flor da Datura stramonium é usado para dores de ouvido, e as sementes, no tratamento de asma, febre e tosse, além de como purgantes.

🌱 Ibogaína
Outros nomes: não apresenta no Brasil
Nome científico: Tabernanthe iboga

A ibogaína é originária de países do centro-oeste africano, onde é usada entre os diferentes povos (p. ex., nos ritos de iniciação dos Bwiti). Em geral, essas pessoas acreditam que o uso da planta pode conduzir a experiências místicas, promovendo o contato com ancestrais no mundo espiritual. Na medicina ocidental, há mais de cem anos, já foi usada tanto no tratamento de quadros relacionados a tripanossomas como em psicoterapia.

Em 1901, um cristal alcalino da iboga foi isolado e chamado de ibogaína. Nesse mesmo ano, descrições a respeito de experimentos com cães apontavam para seus efeitos alucinógenos. Posteriormente, foi recomendada para diferentes situações, como na França, nos anos de 1930, onde tabletes de ibogaína eram vendidos como estimulante neuromuscular, para alívio da fadiga e tratamento de doenças infecciosas, depressão, convalescência e astenia.

Relatos do consumo da iboga entre povos nativos referem desde uma sensação de redução da fadiga até quadros de visões fantásticas, excitação e confusão mental, além de quadros de letargia, que podem durar por 4 a 5 dias, com risco de fatalidade. Em doses menores, o consumo de ibogaína pode produzir alterações visuais como áureas arco-íris em torno de objetos ou pessoas. Doses maiores produzem desde medo até franca euforia e alucinações visuais, auditivas e táteis.

⚠️ Riscos: Casos de morte súbita relacionados ao consumo de ibogaína têm sido os mais alarmantes efeitos colaterais do uso "medicinal" da substância. Esse fenômeno estaria associado a seu potencial de alterar o funcionamento cardíaco, produzindo arritmias.

Apesar dos potenciais riscos envolvidos, a ibogaína é legal em boa parte do mundo, o que tem resultado em seu uso até mesmo de forma "alternativa" no tratamento da dependência química, incentivando situações que favorecem os riscos.

🌳 Jurema
Outros nomes: jurema-preta
Nome científico: Mimosa hostilis, Mimosa tenuiflora, Mimosa ophthalmocentra
Princípio ativo: N,N-dimetiltriptamina (DMT)

A jurema é uma planta leguminosa, com mais de 19 espécies, encontrada em vários países da América do Sul e Central, como Honduras, Guatemala, Panamá, El Salvador, Nicarágua, Colômbia, Venezuela e Brasil, em regiões do Nordeste. Sua madeira é usada para várias finalidades, como produção de carvão e construção de cercados. No entanto, a planta é usada também como alucinógeno.

Em 1946, Gonçalves de Lima, químico pernambucano, isolou a nigerina, que depois foi reconhecida como DMT. Sua ação alucinógena, portanto, também está relacionada ao alcaloide DMT. Assim como a ayahuasca, é usada por religiões que acreditam no potencial da planta de acessar planos espirituais.

É usada em forma de bebidas feitas com cascas e raízes, como o vinho da jurema, o ajucá (ou ajuncá) e o jurubari, e de cigarros produzidos com suas folhas e raízes. Seu consumo como substância alucinógena já era feito antes da colonização portuguesa, sendo incorporada aos cultos afro-brasileiros de várias regiões do País.

Os efeitos da jurema são semelhantes aos observados nas intoxicações por LSD, mas estima-se que tenham uma duração mais curta. Entre os sintomas de intoxicação, estão alucinações visuais com características oníricas, percepção de cores, formas, espaço e tempo alterada, além de quadros de despersonalização, desrealização, grandiosidade, persecutoriedade.

Uso medicinal: Estudos realizados com esse gênero de planta já demonstraram suas propriedades anti-inflamatórias, com bons resultados sobre o eczema. Ações antiespasmódicas, hemolíticas e antimicrobianas também foram evidenciadas.

🌿 Mandragora
Nome científico: Mandragora officinarum e Mandragora autumnalis
Principais princípios ativos: hiosciamina e hioscina, escopolamina e atropina

O uso da mandrágora acontece há milênios, comprovado por sua presença em tumbas egípcias e por achados arqueológicos dos sumérios. No livro do Gênesis, da Bíblia, Capítulo 30, a mandrágora é citada como afrodisíaco. Joana D'Arc, em seu julgamento em 1431, foi acusada pela Igreja de estar com raízes de mandrágora.

É uma planta originada no Mediterrâneo que, assim como a beladona, foi largamente usada pelas bruxas da Idade Média. O formato das raízes da mandrágora, que se assemelha à figura do corpo humano, contribuiu para ampliar o misticismo em torno dela. Acreditava-se que as raízes faziam bem para corpo e alma e que teriam capacidades reprodutivas.

A mandrágora é usada em homeopatia. No entanto, mesmo em baixas doses, produz uma série de efeitos desconfortáveis relacionados à intoxicação por seus alcaloides: cefaleias, náuseas, confusão mental, dores musculares, sintomas de euforia e depressão, fotofobia, irritabilidade e alterações de sensopercepção, como alucinações visuais associadas a alterações nas percepções dos odores e sons.

Uso medicinal: Devido aos riscos de efeitos tóxicos, até em doses menores para o uso tópico, houve um progressivo desinteresse em sua utilização medicamentosa.

🌿 Paricá
Nome científico: Anadenanthera colubrina, Piptadenia peregrina, Virola calophylla
Principais princípios ativos: DMT, o mesmo princípio ativo da ayahuasca

Quando os marinheiros de Colombo chegaram à América, perceberam que os índios usavam um instrumento em forma de "y" que servia para aspirar um tipo de rapé. Tal instrumento era chamado tabaco. Paricá é um termo genérico que diz respeito a rapés usados por populações indígenas de várias etnias.

É produzido a partir de sementes moídas ou cascas trituradas de plantas, como a Virola. Os pajés de diferentes povos indígenas utilizam o paricá em cultos ritualísticos para obtenção de visões místicas e a fim de visitar o mundo dos espíritos e afugentar os seres que são responsáveis por doenças nas aldeias.

Os paricás da região amazônica são inativos se usados por via oral (VO), portanto, são inalados ou usados em clisteres anais.

🌵 Peiote
Outros nomes: mescalito
Nome científico: Lophophora williamsii
Principal princípio ativo: mescalina

Acredita-se que 10% das espécies de cactos sejam alucinógenas, sendo o peiote um dos mais conhecidos. É usado por comunidades indígenas desde mais de 7 mil anos a.C. Os astecas o usavam e o consideravam sagrado. Com a entrada dos espanhóis na América e, por conseguinte, da Igreja Católica, sua utilização foi proibida, e esse hábito, quase exterminado pela Santa Inquisição.

No início do século passado, a American Native Church surgiu com um sincretismo entre religiões indígenas mexicanas e dos Estados Unidos, e décadas depois essas religiões receberam aprovação jurídica para usar o peiote em suas celebrações. Outra igreja que também existe no México e no sudoeste dos Estados Unidos é a Peyote Way Church. Atualmente, cerca de um quarto de toda a população indígena dos Estados Unidos faz parte de uma dessas igrejas e consome essa substância.

A mescalina foi a primeira substância alucinógena a ser sintetizada, em 1919. O consumo do peiote é feito por meio da ingesta da parte superior desse cacto, que é colocada para desidratar ao sol. O sabor é amargo, e o odor produz náuseas. Os efeitos surgem em 30 a 120 minutos após a ingestão e duram de 8 a 9 horas, dependendo da quantidade ingerida, da presença de alimentos no estômago e do tempo de esvaziamento gástrico.

⚠️ Atenção: A dose letal do peiote é de cerca de 800 a 1.200 mg/kg, cerca de 10 a 30 vezes a dose efetiva. Isto é, o risco de toxicidade é muito alto, e a morte é caracterizada por dificuldades respiratórias acompanhadas de quadros de convulsão.
🌿 Sálvia
Outros nomes: Ska Maria Pastora e La María
Nome científico: Salvia divinorum
Principais princípios ativos: salvinorina A, diterpeno neoclerodane

Essa erva da família da hortelã foi originalmente usada por populações indígenas da Sierra Mazateca da região de Oaxaca, no México, e classificada em 1962 por Hofmann e Wasson. Os índios acreditavam que a erva fosse a encarnação da Virgem Maria (motivo dos nomes populares), e por isso era usada por curandeiros para tratar enfermidades diversas, como quadros diarreicos, reumatismo e cefaleias.

Contudo, era usada também para produzir alucinações em ritos de cura, por meio da mastigação das folhas frescas ou pela ingestão do sumo de folhas esmagadas. As folhas também podem ser queimadas, e sua fumaça, inalada, ou podem ser fumadas, o que rapidamente produz efeitos alucinógenos que costumam ser potentes, intensos e com até uma hora de duração.

O agente responsável pelos efeitos alucinógenos é a salvinorina A, a primeira substância alucinógena não nitrogenada descoberta. Cerca de 200 a 500 μg de salvinorina A produzem os mesmos efeitos do uso das folhas mastigadas de Salvia divinorum. Mesmo tendo efeitos semelhantes aos de outros alucinógenos, a salvinorina A não se acopla a receptores 5-HT2A, e, sim, age como um agonista de receptores opioides K (KOR), responsável pelos efeitos analgésicos e psicotomiméticos.

Desde a década de 1990, há relatos de jovens, principalmente no México, nos Estados Unidos e na Europa, que usam as folhas da sálvia como droga de abuso em substituição à maconha. O aumento do consumo tem sido atribuído ao fácil acesso à droga, com fornecedores via internet, e à falta de leis, em vários países do mundo, que regulamentem consumo e venda controlados.

As propriedades únicas da salvinorina A também têm servido como fonte de estudos relacionados ao potencial terapêutico do sistema KOR em transtornos psiquiátricos que estejam associados a quadros alucinatórios, como esquizofrenia, quadros psicóticos em transtornos do humor e mesmo demências do tipo Alzheimer.

✓ Considerações finais

Alucinógenos naturais, devido à falta de leis que regulamentem tanto o cultivo como a venda e o consumo das plantas com propriedades alucinógenas, são facilmente encontrados em sites brasileiros que prometem venda e entrega via correio. A maioria tem um discurso "naturalista" e se apoia no "milenar uso xamanístico" de tais produtos.

Entre as plantas vendidas nesses sites estão Salvia divinorum, chacrona, jurema-preta, paricá, Banisteriopsis caapi.

🧪 "O universo das alucinações produzidas por esses agentes perturbadores do SNC."
Alucinógenos • Daniel Cruz Cordeiro
🧪 Alucinógenos • Aspectos clínicos ✍️ Daniel Cruz Cordeiro 📚 Histórico • Definição • Classificação

Alucinógenos — Aspectos clínicos, históricos e farmacológicos | Daniel Cruz Cordeiro

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