O Arcadismo em Portugal e no Brasil
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LIRA XIV — Tomás Antônio Gonzaga
Minha bela Marília, tudo passa; A sorte deste mundo é mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Oremos nossas testas com as flores E façamos de feno um brando leito; Prendamo-nos, Marília, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos os Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possam deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Também, Marília, morre. Que havemos d'esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; E pode enfim mudar-se a nossa estrela. Ah! não, minha Marília, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças, E ao semblante a graça.
GONZAGA, Tomás Antônio. In: A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.
Odes — Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
Uns, com os olhos postos no passado, Veem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, veem O que não pode ver-se. Por que tão longe ir pôr que está perto A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, é tudo. Ah! enquanto os Destinos impiedosos Não voltam contra nós a face irada, Façamos, sim, façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Perene flui a interminável hora Que nos confessa nulos. No mesmo hausto* Em que vivemos, morreremos. Colhe O dia, porque és ele.
PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1969.
*hausto: sopro; momento muito breve.
1. Os textos apresentados pertencem, respectivamente, às Liras - Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, poeta do século XVIII, e às Odes, de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa (século XX). Embora vivendo realidades distintas, os poetas têm conceitos semelhantes sobre a vida e a passagem do tempo. Em linhas gerais, que posição eles assumem em relação a isso?
Resposta esperada: Ambos assumem uma postura epicurista e estoica diante da fugacidade da vida. Eles reconhecem que o tempo é implacável e que a morte é inevitável, por isso defendem que o ser humano deve aproveitar o momento presente, valorizando os prazeres simples e a juventude, em vez de se preocupar excessivamente com o passado ou com um futuro incerto.
2. Horácio, poeta latino (65 a.C. – 8 a.C.), afirmava em suas Odes: carpe diem ("aproveita o dia"). Transcreva versos de Gonzaga e de Ricardo Reis em que se percebe essa mesma postura.
Resposta esperada:
Gonzaga: "Aproveite-se o tempo, antes que faça / O estrago de roubar ao corpo as forças, / E ao semblante a graça."
Ricardo Reis: "Este é o dia, / Esta é a hora, este o momento, isto / É quem somos, é tudo." ou "Colhe / O dia, porque és ele."
3. Os versos de Gonzaga apresentam a estrutura de diálogo. Há, de fato, uma interlocução, uma conversação? Comente.
Resposta esperada: Sim. O poeta dirige-se diretamente à amada, Marília, utilizando o vocativo ("Minha bela Marília", "Marília bela"). Trata-se de um "diálogo" lírico, onde o eu poético expressa seus sentimentos e exorta a amada a aproveitar o momento presente, criando uma sensação de intimidade e conversação, mesmo que Marília não tenha voz no poema.
4. No Dicionário Houaiss, o adjetivo bucólico tem acepções como: "relativo aos pastores...", "relativo à vida e costumes do campo; campestre", "relativo à natureza, à vida natural". Transcreva versos de Gonzaga que podem ser considerados bucólicos.
Resposta esperada: "Oremos nossas testas com as flores / E façamos de feno um brando leito". Esses versos remetem à vida no campo, à natureza e a um cenário pastoril, idealizado pelos árcades.
O Arcadismo, Setecentismo (a estética dos anos 1700) ou Neoclassicismo "é o período que caracteriza principalmente a segunda metade do século XVIII". Vive-se o Século das Luzes, o Iluminismo burguês, que prepara o caminho para a Revolução Francesa. O Iluminismo caracterizou-se pela negação de qualquer reminiscência da cultura medieval (chamada de "Idade das Trevas") e pela afirmação das ciências e do primado da razão.
A primeira metade do século XVIII marcou a decadência do pensamento barroco. A burguesia ascendente, voltada para questões mundanas, deixou a religiosidade em segundo plano; o exagero da expressão barroca cansou o público, e a arte cortesã começava a declinar. Surgiram, então, as primeiras arcádias, que buscavam a pureza e a simplicidade das formas clássicas.
[ ESPAÇO EM ESPERA: IMAGEM 1 ]
Inserir aqui a imagem da "Primeira página da Enciclopédia, organizada por Diderot e D'Alembert".
Legenda: "A obra representou um enorme esforço de inventariar e organizar o conhecimento humano desenvolvido até então."
Em Portugal: o Arcadismo estende-se de 1756 (fundação da Arcádia Lusitana) até 1825 (publicação do poema "Camões", de Almeida Garrett, marco inicial do Romantismo português).
No Brasil: o início está associado à fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, e à publicação do livro Obras, de Cláudio Manuel da Costa, ambas em 1768.
Momento Histórico
Em Portugal, os primeiros sintomas da nova mentalidade aparecem no reinado de D. João V (1707-1750), com a fundação da Academia Real de História (1720). Após 1750, D. José I governa com o Marquês de Pombal, representante do despotismo esclarecido. Em 1759, Pombal expulsa os jesuítas, acelerando a marginalização do clero e o fim da influência jesuítica na educação.
No Brasil, o século XVIII assinala uma mudança econômica: com a decadência da economia canavieira, o centro econômico transfere-se do Nordeste para as regiões de mineração. Minas Gerais, em especial Vila Rica (atual Ouro Preto), torna-se o centro dos acontecimentos. A atividade mineradora coloca em antagonismo segmentos da classe dominante na Colônia e na metrópole, e o pensamento iluminista francês encontra ampla repercussão no crescente sentimento de nativismo.
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Inserir aqui a pintura de "Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal".
Legenda: "Poderoso ministro de D. José I."
[ ESPAÇO EM ESPERA: IMAGEM 3 ]
Inserir aqui a imagem de "Vila Rica, atual Ouro Preto".
Legenda: "Centro do movimento da Inconfidência."
Características do Arcadismo
O Arcadismo tinha por lema a frase latina Inutilia truncat ("cortar, suprimir as inutilidades"). Visava cortar os exageros, o rebuscamento e a extravagância do Barroco, retornando a um estilo literário mais simples, com objetividade do mundo burguês. Os modelos seguidos eram os clássicos greco-latinos e renascentistas; a mitologia pagã foi retomada como elemento estético.
Inspirados no poeta latino Horácio, os árcades cultivavam o carpe diem (viver o presente, "gozar o dia") e o fugere urbem (fugir da cidade, abandonar os centros urbanos). Essa postura casava-se com a teoria do "bom selvagem", de Rousseau: o ideal de voltar à natureza em busca de uma vida simples, bucólica e pastoril.
Mas é preciso salientar que esse objetivo configurava apenas um estado de espírito, uma posição política e ideológica. Havia uma contradição entre a realidade do progresso urbano e o mundo bucólico idealizado. Por isso se justifica falar em fingimento poético no Arcadismo, fato que transparece no uso dos pseudônimos pastoris. O urbano perfil do rústico pastor: o poeta Bocage assume o nome de Elmano Sadino; os doutores Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga são os pastores Glauceste e Dirceu, respectivamente.
Produção Literária em Portugal: Bocage (1765-1805)
Na poesia lírica de Bocage, a influência do Arcadismo limita-se aos aspectos mais formais, pois, do ponto de vista temático, o poeta foi um pré-romântico. Do Neoclassicismo, conservou o apuro formal (excelente sonetista), o gosto pelo Renascimento (notadamente por Camões) e o pseudônimo pastoril (Elmano Sadino).
No aspecto temático, sua poesia é pré-romântica, marcada pela luta entre Razão e Sentimento:
Mandas-me amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu penso, eu morro."
Ao valorizar o sentimento, Bocage compôs uma poesia confessional, marcada por profundo sofrimento, ciúme e sentimento de abandono. Seu gosto pelo noturno e por formas macabras, e seu extremo pessimismo (que o leva a considerar a morte a única solução), antecipam características românticas:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
A solidão, o pranto, a queixa, a morte."
Em vários poemas, percebe-se também a defesa das liberdades e conquistas burguesas do ideário iluminista. Como poeta satírico, ironizou contemporâneos, o clero e a nobreza decadente, sendo elogiado por seu espírito repentista.
[ ESPAÇO EM ESPERA: IMAGEM 4 ]
Inserir aqui o mapa da Grécia antiga destacando a região da Arcádia.
Legenda: "A Arcádia é uma região montanhosa do Peloponeso, Grécia. [...] Era também uma região de pastores."
Capítulo 7: O Arcadismo em Portugal e no Brasil • Material de estudo • Texto e Intertexto
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