🧠 Luria
Fundamentos de Neuropsicologia
CapĆ­tulo 5 • RegiƵes Parietais
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CapĆ­tulo 5

As RegiƵes Parietais e a Organização de SĆ­nteses SimultĆ¢neas • A.R. Luria
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šŸ“– Texto integral

Discutimos a organização funcional e os modos de funcionamento das zonas secundÔrias do córtex, e, usando as regiões visuais (occipitais) e auditivas (temporais) como exemplo, tentei mostrar a contribuição dada por cada uma delas para a estrutura de processos mentais. Vimos que embora elas sejam responsÔveis por formas complexas de atividade gnóstica humana, essas zonas do cérebro retêm a sua especificidade modal, e podem ser encaradas com justiça como sistemas responsÔveis pelos níveis mais altos de formas mentais especiais de atividade modalmente específica.

HÔ, entretanto, outros processos gnósticos que desempenham um importante papel na atividade consciente humana e que dependem do funcionamento combinado de vÔrios analisadores, permitindo, assim, as formas mais complexas de anÔlise de informações; tais processos constituem a base das formas superiores de atividade gnóstica humana, e devemos, agora, examinÔ-los de perto. Refiro-me às zonas do córtex que se situam entre as regiões occipital, temporal e central e que desempenham um papel bÔsico na organização de sínteses simultâneas (espaciais) complexas.

Não me deterei neste ponto em discussões a respeito da natureza do funcionamento das zonas secundÔrias da região pós-central (parietal), o que farei no próximo capítulo; voltar-me-ei imediatamente para um exame das funções das zonas terciÔrias que acabei de mencionar.

🧩 As zonas corticais terciÔrias e a organização de sínteses espaciais concretas

As zonas das regiões posteriores do cérebro situadas ao nível do limite entre as regiões occipital, temporal e pós-central do hemisfério, onde as Ôreas corticais das sensações visual, auditiva, vestibular, cutânea e proprioceptiva se superpõem, são terciÔrias do ponto de vista funcional. O seu centro é formado pelas Ôreas 39 e 40 de Brodmann, ou região parietal inferior, embora não haja bases sólidas para a exclusão das formações têmporo-occipitais adjacentes das Ôreas 37 e 21.

Essas zonas, que preservam o estriamento transversal e a bem pronunciada estrutura de seis camadas característica de todas as zonas receptoras, consistem inteiramente em células das camadas corticais superiores, com axÓnios curtos e funções predominantemente associativas; fibras vêm ter a elas a partir dos núcleos talâmicos secundÔrios, e os impulsos veiculados por essas fibras jÔ foram integrados nos níveis inferiores.

Essas zonas são formadas apenas no homem, e constituem as porções especificamente humanas do cérebro. Elas amadurecem depois de todas as outras zonas das regiões posteriores do córtex, e não se tornam plenamente operantes senão no sétimo ano de vida. Isto sugere que as estruturas terciÔrias da região parieto-têmporo-occipital que serão agora descritas desempenham um papel especial em sínteses que requerem a inter-relação de analisadores, e que tais estruturas se vinculam à integração de impulsos individuais no interior do mesmo analisador (visual, tÔctil), bem como à transferência de um analisador a outro.

šŸ’” Ɖ esta função "supramodal" que foi atribuĆ­da por muitos investigadores ao córtex parietal inferior (Semmes, 1965; Semmes et al., 1955; Geschwind, 1965; Butters et al., 1970). Todas essas hipóteses concernentes Ć  função integradora das zonas terciĆ”rias do córtex parieto-tĆŖmporo-occipital sĆ£o confirmadas pelos resultados de experimentos fisiológicos e de observaƧƵes neuropsicológicas.

A estimulação elétrica dessas zonas não acarreta efeitos modalmente específicos, fato este que impõe a conclusão de que a maior parte das informações sobre o papel desempenhado por tais zonas na organização de atividade mental deve ser obtida a partir de um estudo cuidadoso das alterações que surgem em processos mentais quando elas são perturbadas por lesões patológicas.

Lesões das zonas parietal inferior e parieto-occipital do córtex não levam a distúrbios modalmente específicos; visão, audição e sensibilidade tÔctil e cinestésica permanecem completamente intactas nesses casos. Entretanto, o exame analítico mostra que pacientes com lesões dessas zonas desenvolvem desordens muito pronunciadas da recepção e da anÔlise de informações.

O quadro desses distúrbios é muito semelhante ao da agnosia simultânea. Pacientes com tais lesões experimentam dificuldade na compreensão das informações que eles recebem como um todo; não conseguem encaixar em uma estrutura única os elementos individuais de impressões que chegam a eles; não podem converter a apresentação consecutiva dos elementos de uma situação na qualidade nova de perceptibilidade simultânea; não mais conseguem atinar com a sua posição no espaço, e a sua tentativa de fazê-lo se converte em sua série de tentativas desconexas e fragmentÔrias de orientação.

Entretanto, devemos acrescentar à descrição desses defeitos um aspecto característico, com o qual jÔ nos familiarizamos por ocasião de nosso exame da agnosia simultânea. Pacientes com lesões da região parieto-occipital não mais conseguem atinar com a sua posição com relação a um sistema de coordenadas espaciais, e, em particular, não mais conseguem diferenciar corretamente direita e esquerda. A explicação evidente deste distúrbio é que a excitação que parte das esferas visual, vestibular e cinestésica, e, em particular, das mãos dominante (direita) e não-dominante (esquerda), conflui nas zonas corticais terciÔrias, e a lesão, portanto, acarreta um complexo grupo de desordens claramente demonstrÔveis.

Pacientes com uma lesão nesta parte do córtex facilmente perdem a sua direção no espaço. Se eles saem para o corredor, não conseguem encontrar o caminho de volta para a enfermaria, virando para a direita em vez de virar para a esquerda; não conseguem achar sua própria cama; quando tentam arrumar a sua cama, eles verificam que esta é uma tarefa impossível: em vez de estender o cobertor ao longo da direção longitudinal do leito eles o fazem ao longo da transversal; quando tentam vestir uma camisa que o médico segura para eles não conseguem encontrar a manga apropriada, e, usualmente, colocam o braço na manga errada.

São incapazes de dizer as horas a partir da posição dos ponteiros de um relógio no qual as horas não estejam numeradas, e têm dificuldade em diferenciar posições simétricas como "três horas" e "nove horas"; são incapazes de identificar uma hora especificada em um mostrador não marcado ou de reproduzir posições complexas dos ponteiros.

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Fig. 40
Distúrbio de orientação em mapas no caso de pacientes com lesões das regiões parieto-occipitais (relações espaciais são confundidas).
Imagem ilustrativa: Distúrbio de orientação em mapas

Todos esses pacientes — mesmo aqueles que no passado tiveram experiĆŖncia suficiente — sĆ£o incapazes de atinar com a sua posição em um mapa, confundindo leste com oeste, e, quando instados a esboƧar em um mapa a posição de lugares bem conhecidos, cometem erros grosseiros (Fig. 40). Incorrem igualmente em graves erros quando procuram encontrar coordenadas em trĆŖs dimensƵes: confundem os planos horizontal, frontal e sagital; quando testados pelo mĆ©dico sĆ£o incapazes de reproduzir corretamente a posição de sua mĆ£o, ou de construir uma figura a partir de seus elementos constituintes que devem ser encaixados em uma posição precisa no espaƧo. Por causa dessas dificuldades, esses pacientes exibem o sintoma conhecido como apraxia construtiva.

Finalmente, uma manifestação particularmente pronunciada desta desordem é que os pacientes revelam grande dificuldade para desenhar letras. Ao contrÔrio de pacientes com lesões das zonas temporais esquerdas, a dificuldade que esses pacientes experimentam ao escrever é devida não à incapacidade de diferenciar claramente o som ou fonema a ser escrito, mas, sim, à incapacidade de reter a requerida posição espacial das linhas que formam a letra, e, como resultado, os seus desenhos (ou cópias) de letras assumem um carÔter desorganizado; às vezes, em casos menos severos, a letra é substituída por sua imagem especular (Fig. 41).

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Fig. 41
Distúrbios óptico-espaciais de escrita em pacientes com lesão da região parieto-occipital: (a) um paciente com um ferimento bilateral da região occipital; (b) e (c) um paciente com um ferimento da região parieto-occipital esquerda.
Imagem ilustrativa: Distúrbios óptico-espaciais de escrita

Nos casos mais severos todos esses defeitos se manifestam durante a reprodução direta de estruturas tridimensionais. Em casos menos graves eles se externam apenas quando o paciente tenta reproduzir de memória uma dada posição espacial solicitada, ou quando se atribui ao enfermo a tarefa de transferir conscientemente certas relações espaciais (por exemplo, quando se lhe pede que erga a mesma mão, ou que reproduza a posição da mão de uma pessoa sentada de frente para ele, ou quando se lhe solicita que inverta mentalmente a relação espacial percebida de uma figura geométrica sobre a mesa defronte do investigador, de modo a que ela tenha a mesma relação com respeito a ele próprio).

DistĆŗrbios de orientação espacial deste tipo podem surgir em casos de lesƵes tanto do hemisfĆ©rio esquerdo (dominante) — condição em que eles sĆ£o particularmente pronunciados — como do hemisfĆ©rio direito (nĆ£o-dominante).

šŸ’” DiferenƧas apreciĆ”veis comeƧam a aparecer apenas quando deixamos de estudar distĆŗrbios no espaƧo concreto e passamos a examinar formas mais complexas de distĆŗrbios de orientação em relaƧƵes lógicas, "quase-espaciais". Isto nos traz Ć  anĆ”lise neuropsicológica das formas mais complexas e especificamente humanas de atividade gnóstica.
šŸ” Conceitos-chave do capĆ­tulo
šŸ“‹ Zonas terciĆ”rias: Ć”reas corticais de associação situadas entre as regiƵes occipital, temporal e pós-central (Ć”reas 39 e 40 de Brodmann). SĆ£o especificamente humanas, amadurecem por volta do sĆ©timo ano de vida e desempenham função "supramodal" — integrando informaƧƵes de diferentes analisadores.
  • SĆ­nteses simultĆ¢neas (espaciais): capacidade de organizar elementos em uma estrutura Ćŗnica e simultĆ¢nea.
  • Agnosia simultĆ¢nea: dificuldade em compreender informaƧƵes recebidas como um todo.
  • Apraxia construtiva: incapacidade de construir figuras a partir de elementos que exigem posição precisa no espaƧo.
  • Desorientação espacial: perda da noção de direita/esquerda, dificuldade com mapas e coordenadas.
  • Escrita especular: substituição de letras por sua imagem invertida, por dificuldade em reter a posição espacial das linhas.
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Fundamentos de Neuropsicologia — CapĆ­tulo 5: As RegiƵes Parietais e a Organização de SĆ­nteses SimultĆ¢neas | A.R. Luria

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