CapĆtulo 5
EspaƧo reservado para imagem
Substitua este bloco pela imagem desejada no editor do Blogspot
<img src="URL_DA_IMAGEM" alt="RegiƵes Parietais" style="max-width:100%; border-radius:12px;">
Discutimos a organização funcional e os modos de funcionamento das zonas secundĆ”rias do córtex, e, usando as regiƵes visuais (occipitais) e auditivas (temporais) como exemplo, tentei mostrar a contribuição dada por cada uma delas para a estrutura de processos mentais. Vimos que embora elas sejam responsĆ”veis por formas complexas de atividade gnóstica humana, essas zonas do cĆ©rebro retĆŖm a sua especificidade modal, e podem ser encaradas com justiƧa como sistemas responsĆ”veis pelos nĆveis mais altos de formas mentais especiais de atividade modalmente especĆfica.
HĆ”, entretanto, outros processos gnósticos que desempenham um importante papel na atividade consciente humana e que dependem do funcionamento combinado de vĆ”rios analisadores, permitindo, assim, as formas mais complexas de anĆ”lise de informaƧƵes; tais processos constituem a base das formas superiores de atividade gnóstica humana, e devemos, agora, examinĆ”-los de perto. Refiro-me Ć s zonas do córtex que se situam entre as regiƵes occipital, temporal e central e que desempenham um papel bĆ”sico na organização de sĆnteses simultĆ¢neas (espaciais) complexas.
NĆ£o me deterei neste ponto em discussƵes a respeito da natureza do funcionamento das zonas secundĆ”rias da regiĆ£o pós-central (parietal), o que farei no próximo capĆtulo; voltar-me-ei imediatamente para um exame das funƧƵes das zonas terciĆ”rias que acabei de mencionar.
š§© As zonas corticais terciĆ”rias e a organização de sĆnteses espaciais concretas
As zonas das regiƵes posteriores do cĆ©rebro situadas ao nĆvel do limite entre as regiƵes occipital, temporal e pós-central do hemisfĆ©rio, onde as Ć”reas corticais das sensaƧƵes visual, auditiva, vestibular, cutĆ¢nea e proprioceptiva se superpƵem, sĆ£o terciĆ”rias do ponto de vista funcional. O seu centro Ć© formado pelas Ć”reas 39 e 40 de Brodmann, ou regiĆ£o parietal inferior, embora nĆ£o haja bases sólidas para a exclusĆ£o das formaƧƵes tĆŖmporo-occipitais adjacentes das Ć”reas 37 e 21.
Essas zonas, que preservam o estriamento transversal e a bem pronunciada estrutura de seis camadas caracterĆstica de todas as zonas receptoras, consistem inteiramente em cĆ©lulas das camadas corticais superiores, com axĆ“nios curtos e funƧƵes predominantemente associativas; fibras vĆŖm ter a elas a partir dos nĆŗcleos talĆ¢micos secundĆ”rios, e os impulsos veiculados por essas fibras jĆ” foram integrados nos nĆveis inferiores.
Essas zonas sĆ£o formadas apenas no homem, e constituem as porƧƵes especificamente humanas do cĆ©rebro. Elas amadurecem depois de todas as outras zonas das regiƵes posteriores do córtex, e nĆ£o se tornam plenamente operantes senĆ£o no sĆ©timo ano de vida. Isto sugere que as estruturas terciĆ”rias da regiĆ£o parieto-tĆŖmporo-occipital que serĆ£o agora descritas desempenham um papel especial em sĆnteses que requerem a inter-relação de analisadores, e que tais estruturas se vinculam Ć integração de impulsos individuais no interior do mesmo analisador (visual, tĆ”ctil), bem como Ć transferĆŖncia de um analisador a outro.
A estimulação elĆ©trica dessas zonas nĆ£o acarreta efeitos modalmente especĆficos, fato este que impƵe a conclusĆ£o de que a maior parte das informaƧƵes sobre o papel desempenhado por tais zonas na organização de atividade mental deve ser obtida a partir de um estudo cuidadoso das alteraƧƵes que surgem em processos mentais quando elas sĆ£o perturbadas por lesƵes patológicas.
LesƵes das zonas parietal inferior e parieto-occipital do córtex nĆ£o levam a distĆŗrbios modalmente especĆficos; visĆ£o, audição e sensibilidade tĆ”ctil e cinestĆ©sica permanecem completamente intactas nesses casos. Entretanto, o exame analĆtico mostra que pacientes com lesƵes dessas zonas desenvolvem desordens muito pronunciadas da recepção e da anĆ”lise de informaƧƵes.
O quadro desses distúrbios é muito semelhante ao da agnosia simultânea. Pacientes com tais lesões experimentam dificuldade na compreensão das informações que eles recebem como um todo; não conseguem encaixar em uma estrutura única os elementos individuais de impressões que chegam a eles; não podem converter a apresentação consecutiva dos elementos de uma situação na qualidade nova de perceptibilidade simultânea; não mais conseguem atinar com a sua posição no espaço, e a sua tentativa de fazê-lo se converte em sua série de tentativas desconexas e fragmentÔrias de orientação.
Entretanto, devemos acrescentar Ć descrição desses defeitos um aspecto caracterĆstico, com o qual jĆ” nos familiarizamos por ocasiĆ£o de nosso exame da agnosia simultĆ¢nea. Pacientes com lesƵes da regiĆ£o parieto-occipital nĆ£o mais conseguem atinar com a sua posição com relação a um sistema de coordenadas espaciais, e, em particular, nĆ£o mais conseguem diferenciar corretamente direita e esquerda. A explicação evidente deste distĆŗrbio Ć© que a excitação que parte das esferas visual, vestibular e cinestĆ©sica, e, em particular, das mĆ£os dominante (direita) e nĆ£o-dominante (esquerda), conflui nas zonas corticais terciĆ”rias, e a lesĆ£o, portanto, acarreta um complexo grupo de desordens claramente demonstrĆ”veis.
Pacientes com uma lesĆ£o nesta parte do córtex facilmente perdem a sua direção no espaƧo. Se eles saem para o corredor, nĆ£o conseguem encontrar o caminho de volta para a enfermaria, virando para a direita em vez de virar para a esquerda; nĆ£o conseguem achar sua própria cama; quando tentam arrumar a sua cama, eles verificam que esta Ć© uma tarefa impossĆvel: em vez de estender o cobertor ao longo da direção longitudinal do leito eles o fazem ao longo da transversal; quando tentam vestir uma camisa que o mĆ©dico segura para eles nĆ£o conseguem encontrar a manga apropriada, e, usualmente, colocam o braƧo na manga errada.
São incapazes de dizer as horas a partir da posição dos ponteiros de um relógio no qual as horas não estejam numeradas, e têm dificuldade em diferenciar posições simétricas como "três horas" e "nove horas"; são incapazes de identificar uma hora especificada em um mostrador não marcado ou de reproduzir posições complexas dos ponteiros.
Todos esses pacientes — mesmo aqueles que no passado tiveram experiĆŖncia suficiente — sĆ£o incapazes de atinar com a sua posição em um mapa, confundindo leste com oeste, e, quando instados a esboƧar em um mapa a posição de lugares bem conhecidos, cometem erros grosseiros (Fig. 40). Incorrem igualmente em graves erros quando procuram encontrar coordenadas em trĆŖs dimensƵes: confundem os planos horizontal, frontal e sagital; quando testados pelo mĆ©dico sĆ£o incapazes de reproduzir corretamente a posição de sua mĆ£o, ou de construir uma figura a partir de seus elementos constituintes que devem ser encaixados em uma posição precisa no espaƧo. Por causa dessas dificuldades, esses pacientes exibem o sintoma conhecido como apraxia construtiva.
Finalmente, uma manifestação particularmente pronunciada desta desordem Ć© que os pacientes revelam grande dificuldade para desenhar letras. Ao contrĆ”rio de pacientes com lesƵes das zonas temporais esquerdas, a dificuldade que esses pacientes experimentam ao escrever Ć© devida nĆ£o Ć incapacidade de diferenciar claramente o som ou fonema a ser escrito, mas, sim, Ć incapacidade de reter a requerida posição espacial das linhas que formam a letra, e, como resultado, os seus desenhos (ou cópias) de letras assumem um carĆ”ter desorganizado; Ć s vezes, em casos menos severos, a letra Ć© substituĆda por sua imagem especular (Fig. 41).
Nos casos mais severos todos esses defeitos se manifestam durante a reprodução direta de estruturas tridimensionais. Em casos menos graves eles se externam apenas quando o paciente tenta reproduzir de memória uma dada posição espacial solicitada, ou quando se atribui ao enfermo a tarefa de transferir conscientemente certas relações espaciais (por exemplo, quando se lhe pede que erga a mesma mão, ou que reproduza a posição da mão de uma pessoa sentada de frente para ele, ou quando se lhe solicita que inverta mentalmente a relação espacial percebida de uma figura geométrica sobre a mesa defronte do investigador, de modo a que ela tenha a mesma relação com respeito a ele próprio).
DistĆŗrbios de orientação espacial deste tipo podem surgir em casos de lesƵes tanto do hemisfĆ©rio esquerdo (dominante) — condição em que eles sĆ£o particularmente pronunciados — como do hemisfĆ©rio direito (nĆ£o-dominante).
- SĆnteses simultĆ¢neas (espaciais): capacidade de organizar elementos em uma estrutura Ćŗnica e simultĆ¢nea.
- Agnosia simultânea: dificuldade em compreender informações recebidas como um todo.
- Apraxia construtiva: incapacidade de construir figuras a partir de elementos que exigem posição precisa no espaço.
- Desorientação espacial: perda da noção de direita/esquerda, dificuldade com mapas e coordenadas.
- Escrita especular: substituição de letras por sua imagem invertida, por dificuldade em reter a posição espacial das linhas.
Fundamentos de Neuropsicologia — CapĆtulo 5: As RegiƵes Parietais e a Organização de SĆnteses SimultĆ¢neas | A.R. Luria
0 ComentƔrios