🧠 Psicanálise
Capítulo XXIV – A Preocupação Materna Primária
Winnicott • 1956 • Material de estudo
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A Preocupação Materna Primária

Capítulo XXIV • 1956 • D. W. Winnicott
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📖 Nota introdutória

Este é um estudo clássico de D. W. Winnicott (1956), publicado em Da Pediatria à Psicanálise. O texto discute o estado psicológico especial da mãe nos primeiros meses de vida do bebê — a Preocupação Materna Primária — e sua importância fundamental para a constituição do eu infantil.

⚠️ Material de estudo: texto integral adaptado para leitura no Blogspot. Recomenda-se a leitura da obra original para aprofundamento.
📜 Texto integral

A PRESENTE CONTRIBUIÇÃO encontrou o seu estímulo na discussão publicada em The Psychoanalytic Study of the Child, vol. IX, sob o título: "Problems of Infantile Neurosis". As diversas contribuições da Srta. Freud nessa discussão perfazem uma importante declaração sobre o estado atual da teoria psicanalítica no que tange aos estágios muito iniciais da vida da criança e à construção da personalidade.

Gostaria de discutir a questão do relacionamento mãe-bebê em sua etapa inicial, questão esta de importância máxima nessa fase, e que só gradualmente passa a segundo plano em relação à questão do bebê enquanto um ser independente.

Sinto necessidade de em primeiro lugar apoiar o que diz a Srta. Freud no item 'Mal-entendidos Atuais': 'Os desapontamentos e as frustrações são inseparáveis da relação mãe-criança. (...) Lançar a culpa pela neurose infantil sobre as falhas da mãe na fase oral constitui não mais que uma generalização enganosa e superficial. A análise deveria ir mais longe e mais fundo em sua busca pelas causas da neurose." Com estas palavras, a Srta. Freud expressa um ponto de vista geralmente aceito pelos psicanalistas.

Apesar disto, seria muito proveitoso levarmos em conta o lugar da mãe. Existe algo que chamamos de ambiente não suficientemente bom, que distorce o desenvolvimento do bebê, assim como existe o ambiente suficientemente bom, que possibilita ao bebê alcançar, a cada etapa, as satisfações, ansiedades e conflitos inatos e pertinentes.

A Srta. Freud nos faz lembrar que é lícito pensar sobre os padrões pré-genitais em termos de duas pessoas que, juntas, tentam alcançar o que poderia ser chamado, resumidamente, de 'equilíbrio homeostático' (ver Mahler, 1954). O mesmo fenômeno recebe o nome de 'relacionamento simbiótico'. Diz-se frequentemente que a mãe de um bebê é biologicamente condicionada para a sua tarefa de lidar de modo todo especial com as necessidades do bebê. Em linguagem mais comum, existe uma identificação — consciente mas também profundamente inconsciente — que a mãe tem com o seu bebê.

Acredito que esses vários conceitos e noções deveriam ser reunidos num conjunto, e que o estudo da mãe deveria ser trazido para fora do campo puramente biológico. O termo simbiose não nos leva mais longe que a comparação entre o relacionamento da mãe e o bebê com outros exemplos da vida animal e vegetal — a interdependência física. As palavras equilíbrio homeostático evitam certos aspectos mais sutis que surgem ao nosso olhar, quando observamos esse relacionamento com a atenção que lhe é devida.

O que nos interessa é a enorme diferença psicológica entre, por um lado, a identificação da mãe com o bebê, e por outro, a dependência do bebê em relação à mãe. A dependência não implica em identificação, pois esta última constitui um fenômeno complexo demais para que o localizemos nos primeiros estágios da vida do bebê.

A Srta. Freud deixa claro que já estamos bem longe daquela desajeitada fase da teoria psicanalítica em que falávamos da vida do bebê como se esta tivesse início com as suas experiências instintivas orais. Atualmente encontramo-nos engajados no estudo do desenvolvimento inicial e do eu primitivo que, quando o desenvolvimento alcança um grau suficientemente elevado, é fortalecido pelas experiências do id em vez de prejudicado por elas.

A Srta. Freud afirma, ao discutir o termo 'análise', de Freud: 'O relacionamento com a mãe, embora seja o primeiro com um outro ser humano, não é o primeiro relacionamento do bebê com um ambiente. Precede-o uma fase anterior, na qual não o mundo objetivo mas as necessidades corporais, sua satisfação e frustração desempenham o papel principal.'

A meu ver, a introdução do termo 'necessidade' no lugar de 'desejo' foi muito importante do ponto de vista teórico, mas eu preferiria que a Srta. Freud não tivesse usado as palavras 'satisfação' e 'frustração' nesse ponto: a necessidade ou é resolvida ou não, e a consequência não é a mesma que a satisfação ou frustração de um impulso do id.

Caberia mencionar agora a afirmação de Greenacre (1954) sobre o que ela chama de 'aspecto acalentador' do prazer rítmico. Encontramos aqui um exemplo de necessidade que é ou não resolvida, e seria errôneo dizer que o bebê não ninado reage como reagiria a uma frustração. Certamente não haverá raiva, e sim alguma forma de distorção do desenvolvimento numa fase primitiva.

Seja como for, um estudo aprofundado da função materna nas fases mais primitivas parece-me extremamente necessário, e eu gostaria de reunir aqui as diversas pistas existentes a fim de formular uma proposta para o debate.

A preocupação materna

Minha tese é a de que na primeira de todas as fases estaríamos lidando com um estado muito especial da mãe, um estado psicológico que merece um nome, tal como Preocupacão Materna Primária. A meu entender, não foi dada ainda a devida atenção em nossa literatura, e talvez em parte alguma, para uma condição psiquiátrica muito especial da mãe sobre a qual eu poderia dizer o seguinte:

Gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez.

Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê.

Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram.

Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida.

Essa condição organizada (que seria uma doença no caso de não existir uma gravidez) poderia ser comparada a um estado de retraimento ou de dissociação, ou a uma fuga, ou mesmo a um distúrbio num nível mais profundo, como por exemplo um episódio esquizóide, onde um determinado aspecto da personalidade toma o poder temporariamente.

Gostaria muito de encontrar um bom nome para essa condição, e propor que ele seja adotado como algo a ser levado em consideração toda vez que fosse feita referência à fase inicial da vida do bebê. Não acredito que seja possível compreender o funcionamento da mãe no início mesmo da vida do bebê sem perceber que ela deve alcançar esse estado de sensibilidade exacerbada, quase uma doença, e recuperar-se dele. (Introduzo aqui a palavra "doença" porque a mulher deve ter saúde suficiente tanto para desenvolver esse estado quanto para recuperar-se dele à medida que o bebê a libera. Caso o bebê morra, o estado da mãe repentinamente revela-se uma doença. A mãe corre esse risco.)

Deixei esta idéia implícita no termo 'devotada' na expressão 'a mãe devotada comum' (Winnicott, 1949). Muitas mulheres são com certeza boas mães em todos os outros aspectos, e levam uma vida rica e produtiva, mas não têm a capacidade de contrair essa 'doença normal' que lhes possibilitaria a adaptação sensível e delicada às necessidades do bebê já nos primeiros momentos. Ou conseguem fazê-lo com um filho e não com outro. Tais mulheres não conseguem preocupar-se com o seu bebê a ponto de excluírem quaisquer outros interesses, de maneira normal e temporária. É possível inclusive imaginar que com algumas dessas pessoas ocorre uma "fuga para a sanidade". Algumas delas têm certamente outras preocupações importantes, que não abandonam muito prontamente, ou talvez não consigam deixá-las de lado até terem o seu primeiro bebê. A mulher que se caracteriza por uma forte identificação masculina sentirá essa parte das funções maternas a mais difícil de realizar, e uma inveja do pênis reprimida deixa muito pouco espaço para a preocupação materna primária.

Na prática acontece que mulheres desse tipo, tendo produzido uma criança, mas tendo perdido o bonde no estágio mais inicial, defrontam-se com a tarefa de compensar o que ficou perdido. À sua frente estende-se um longo período durante o qual elas terão de adaptar-se às crescentes necessidades de seus filhos, e nada garante que elas conseguirão corrigir as distorções do início. Em vez de terem naturalmente os bons resultados da preocupação temporária inicial, elas são apanhadas pela necessidade de terapia apresentada pela criança, ou seja, por um período prolongado dedicado a adaptar-se à necessidade, ou seja, a mimar a criança. Em vez de serem mães, fazem terapia.

O mesmo fenômeno foi descrito por Kanner (1943), Loretta Bender (1947) e outros que tentaram descrever a mãe capaz de levar ao autismo infantil (Creak, 1951; Mahler, 1954).

É possível comparar aqui a tarefa da mãe que tenta compensar sua incapacidade no passado e a da sociedade que procura reconduzir uma criança de-privada do comportamento anti-social a um estado de identificação social. Esse trabalho da mãe (ou da sociedade) revela-se muitíssimo difícil, pois não é realizado de modo natural. A tarefa pertence na verdade a uma época anterior, neste caso à época em que o bebê mal começava a existir enquanto indivíduo.

Se esta tese sobre o estado especial da mãe normal e sua recuperação parecer aceitável, poderemos passar a examinar mais detidamente o estado correspondente do bebê.

O bebê apresenta:

Uma constituição,

Tendências inatas ao desenvolvimento ("áreas livres de conflito no ego").

Motilidade e sensibilidade. Instintos, eles próprios engajados na tendência ao desenvolvimento, com mudança das zonas dominantes.

A mãe que desenvolve esse estado ao qual chamei de "preocupação materna primária" fornece um contexto para que a constituição da criança comece a se manifestar, para que as tendências ao desenvolvimento comecem a desdobrar-se, e para que o bebê comece a experimentar movimentos espontâneos e se torne dono das sensações correspondentes a essa etapa inicial da vida. A vida instintiva não precisa ser mencionada aqui porque o que estou descrevendo tem início antes do estabelecimento de padrões instintivos.

Tentei descrever tais idéias em minha própria linguagem, dizendo que se a mãe proporciona uma adaptação suficientemente boa à necessidade do bebê, a linha de vida da criança é perturbada muito pouco por reações à intrusão. (Naturalmente, são as reações às intrusões que contam, não as intrusões em si mesmas.) A falha materna provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o "continuar a ser" do bebê. O excesso de reações não provoca frustração, mas uma ameaça de aniquilação. A meu ver, esta é uma ansiedade muitíssimo primitiva, muito anterior a qualquer ansiedade que inclua a palavra 'morte' em sua descrição.

Dito de outro modo, a base para o estabelecimento do ego é um suficiente "continuar a ser" não interrompido por reações à intrusão. Esse "continuar a ser" será suficiente apenas no caso de a mãe encontrar-se nesse estado que (conforme sugeri) é muito real no período próximo ao fim da gravidez e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê.

Somente no caso de a mãe estar sensível do modo como descrevi poderá ela sentir-se no lugar do bebê, e assim corresponder às suas necessidades. A princípio trata-se de necessidades corporais, que gradualmente transformam-se em necessidades do ego à medida que da elaboração imaginativa das experiências físicas emerge uma psicologia.

Passa a existir então uma relacionabilidade do ego entre a mãe e o bebê, da qual a mãe se recupera e a partir da qual o bebê pode vir a construir em algum momento a idéia de uma pessoa presente na mãe. Desde este ângulo, o reconhecimento da mãe como uma pessoa surge de modo positivo, normalmente, em vez de derivar da experiência de que a mãe simboliza a frustração. A falha da mãe em adaptar-se na fase mais primitiva não leva a coisa alguma, salvo à aniquilação do eu do bebê.

O que a mãe faz bem não será jamais apreendido pelo bebê nesse estágio. Trata-se de um fato concordante com a minha tese. Suas falhas não são sentidas como falhas da mãe, e sim como ameaças à existência pessoal do eu.

Na linguagem destas considerações, a constituição inicial do ego é, portanto, silenciosa. A primeira organização do ego deriva da experiência de ameaças de aniquilação que não chegam a se cumprir, e das quais, repetidamente, o bebê se recupera. A partir dessas experiências, a confiança na recuperação começa a transformar-se em algo que leva ao ego e à capacidade do ego de suportar frustrações.

Espero ter ficado claro que a presente tese tem uma contribuição a fazer para a questão do reconhecimento da mãe, pelo bebê, como uma mãe frustrante. Num momento posterior isto realmente acontece, mas não neste estágio tão primitivo. No início a mãe que falha não é percebida desta forma. De fato, o reconhecimento de uma dependência absoluta da mãe e de sua capacidade para a preocupação maternal primária, seja este ou não o nome que se lhe dê, é algo pertencente a uma sofisticação extrema e a um estágio nem sempre alcançável mesmo por adultos. O fracasso generalizado em reconhecer a dependência absoluta no início contribui para o temor à MULHER no qual tomam parte tanto homens quanto mulheres (Winnicott, 1950, 1957a).

Podemos falar agora sobre o motivo pelo qual acreditamos que a mãe do bebê é a pessoa mais adequada para cuidar desse mesmo bebê: é ela a pessoa capaz de atingir esse estágio especial de preocupação materna primária sem ficar doente. Já a mãe adotiva, ou qualquer outra mulher capaz de ficar doente no sentido da 'preocupação materna primária', estará possivelmente em condições de adaptar-se suficientemente bem, na medida da sua capacidade de identificar-se com o bebê.

Conforme a tese ora apresentada, o fornecimento de um ambiente suficientemente bom na fase mais primitiva capacita o bebê a começar a existir, a ter experiências, a constituir um ego pessoal, a dominar os instintos e a defrontar-se com todas as dificuldades inerentes à vida. Tudo isto é sentido como real pelo bebê que se torna capaz de ter um eu, o qual, por sua vez, pode em algum momento vir até mesmo a sacrificar a espontaneidade, e até mesmo morrer.

Por outro lado, sem a propiciação de um ambiente inicial suficientemente bom, esse eu que pode dar-se ao luxo de morrer nunca se desenvolve. O sentimento de realidade encontra-se ausente, e se não houver caos em excesso o sentimento final será o de inutilidade. As dificuldades inerentes à vida não poderão ser alcançadas, e menos ainda o serão as satisfações. Quando não há caos surge um eu falso que esconde o eu verdadeiro, que se submete às exigências, que reage aos estímulos e que se livra das experiências instintivas tendo-as, mas que está apenas ganhando tempo.

Ver-se-á que, de acordo com esta tese, os fatores constitucionais terão mais probabilidade de manifestar-se na normalidade, quando o ambiente da primeira fase for adaptativo. Por contraste, tendo ocorrido uma falha nesse primeiro estágio, o bebê será apanhado por mecanismos de defesa primitivos (falso eu etc.), que pertencem à ameaça de aniquilação, e os elementos constitucionais tenderão a ficar anulados (salvo quando se manifestam fisicamente).

É preciso deixar de lado aqui o problema da introjeção, pelo bebê, de padrões de doença da mãe, ainda que se trate de algo muitíssimo importante ao considerarmos o fator ambiental nos estágios seguintes, após o primeiro estágio de dependência absoluta.

Ao reconstruirmos o desenvolvimento inicial de um bebê, não há razão alguma para falarmos de instintos, exceto em termos de desenvolvimento do ego.

Aí existe um divisor de águas:

Maturidade egóica — experiências instintivas fortalecem o ego.

Imaturidade egóica — experiências instintivas estraçalham o ego.

Aqui, "ego" equivale a um somatório de experiências. O eu individual tem como início um somatório de experiências tranqüilas, motilidade espontânea e sensações, retornos da atividade à quietude, e o estabelecimento da capacidade de esperar que haja recuperação depois das aniquilações; aniquilações resultantes das reações contra as intrusões do ambiente. Por esta razão, é necessário que o indivíduo tenha o seu início nesse ambiente especializado ao qual me referi com o título: "A Preocupação Materna Primária".

D. W. Winnicott — Da Pediatria à Psicanálise
🔍 Conceitos-chave do capítulo
📋 Preocupação Materna Primária: estado psicológico especial da mãe, de sensibilidade exacerbada, que se inicia ao final da gravidez e dura algumas semanas após o nascimento. É uma "doença normal" que possibilita a adaptação sensível às necessidades do bebê.
  • Ambiente suficientemente bom: permite ao bebê alcançar as satisfações, ansiedades e conflitos inatos e pertinentes a cada etapa.
  • Ambiente não suficientemente bom: distorce o desenvolvimento do bebê.
  • "Continuar a ser": base para o estabelecimento do ego; interrompido por reações à intrusão.
  • Ameaça de aniquilação: ansiedade primitiva anterior à ansiedade de morte.
  • Falso eu: surge quando o ambiente inicial falha; esconde o eu verdadeiro e submete-se às exigências.
🧠 "A base para o estabelecimento do ego é um suficiente 'continuar a ser' não interrompido por reações à intrusão."
D. W. Winnicott • A Preocupação Materna Primária (1956)
🧠 Psicanálise • Winnicott 📖 Capítulo XXIV • 1956 📚 Material de estudo

Capítulo XXIV – A Preocupação Materna Primária • D. W. Winnicott • Da Pediatria à Psicanálise

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