Caso Clínico | Exames normais com sintomas — o que investigar?

📋 Caso Clínico Anônimo

Exames hepáticos normais com sintomas persistentes — quando investigar além das transaminases?

👤 Identificação e Queixa Principal

Paciente: M.S., 42 anos, sexo feminino, professora.

Queixa principal: "Cansaço extremo há mais de 6 meses, com dor no lado direito da barriga e inchaço abdominal."

Histórico: Nega etilismo, nega uso de medicamentos contínuos. Relata alimentação irregular, sobrepeso (IMC 28). Sem antecedentes hepáticos familiares conhecidos.

🧪 Exames Laboratoriais Iniciais
ExameResultadoValor de referênciaStatus
TGO (AST)23 U/Laté 32 U/L (mulheres)✅ Normal
TGP (ALT)19 U/Laté 33 U/L (mulheres)✅ Normal
Gama-GT28 U/Laté 40 U/L✅ Normal
Fosfatase Alcalina72 U/L40-130 U/L✅ Normal
Bilirrubinas Totais0.6 mg/dLaté 1.2 mg/dL✅ Normal
Albumina4.1 g/dL3.5-5.0 g/dL✅ Normal
📌 Conclusão inicial: Todos os marcadores hepáticos dentro da normalidade. A paciente, no entanto, mantém queixas significativas.
🤔 O Dilema: exames normais com sintomas

⚠️ Sintomas persistentes

  • Fadiga intensa, não aliviada com repouso
  • Dor em hipocôndrio direito (desconforto intermitente)
  • Sensação de plenitude abdominal
  • Episódios de náusea leve após refeições gordurosas

🔍 Fatores de risco presentes

  • Sobrepeso (IMC 28)
  • Sedentarismo
  • Dieta rica em carboidratos refinados e gorduras
  • História de hipertensão leve (tratada com dieta)
🔬 Investigação Complementar

Diante da persistência dos sintomas e dos fatores de risco, foram solicitados exames adicionais:

ExameResultadoInterpretação
Ultrassom de abdome totalFígado aumentado (16 cm), ecogenicidade aumentada, gordura difusa. Vesícula com pequeno pólipo (3mm).⚠️ Esteatose hepática moderada
Hemoglobina glicada (HbA1c)5.9%⚠️ Pré-diabetes
Colesterol total / triglicerídeosCT 210 / TG 180 mg/dL⚠️ Dislipidemia mista
Ferritina280 ng/mL⚠️ Elevada (esteatose associada)
Elastografia hepática (FibroScan)7.8 kPaFibrose leve (estágio F1-F2)
💡 Achados principais: Esteatose hepática não alcoólica (NAFLD) com esteato-hepatite (NASH) em estágio inicial, associada a síndrome metabólica (sobrepeso, pré-diabetes, dislipidemia). As transaminases normais não excluem doença hepática gordurosa!
📚 Diagnóstico Diferencial

✅ Diagnóstico estabelecido

Esteatose hepática não alcoólica (NAFLD) com esteato-hepatite (NASH) em estágio inicial.

Critérios: esteatose ao ultrassom, presença de fatores de risco metabólicos, exclusão de outras causas hepáticas.

🔎 Diagnósticos excluídos

  • Hepatites virais (sorologias negativas)
  • Doença hepática alcoólica (nega etilismo)
  • Doenças autoimunes (ANA, anti-músculo liso negativos)
  • Colestase (bilirrubinas e FA normais)
  • Cirrose avançada (elastografia com fibrose leve)
🧠 Discussão: Transaminases normais não excluem doença hepática

Até 30-40% dos pacientes com esteatose hepática apresentam transaminases dentro da normalidade. Este fenômeno ocorre porque:

  • A lesão hepatocelular pode ser leve e focal, sem elevação significativa das enzimas
  • Pode haver adaptação celular com liberação reduzida de enzimas
  • Variabilidade individual e interferência de fatores como vitamina B6
⚠️ Mensagem central: Sintomas como fadiga, dor em hipocôndrio direito e fatores de risco metabólicos justificam investigação com ultrassom e outros marcadores, independentemente dos níveis de transaminases.
📋 Conduta e Orientações

Intervenções recomendadas:

  • Perda de peso: redução de 7-10% do peso corporal → melhora significativa da esteatose e da inflamação
  • Atividade física: 150-200 minutos/semana de exercícios aeróbicos e resistidos
  • Alimentação: dieta mediterrânea, redução de carboidratos refinados, evitar frutose em excesso
  • Controle metabólico: acompanhamento de glicemia, colesterol e triglicerídeos
  • Reavaliação: nova elastografia em 12-18 meses
📌 Prognóstico: Com adesão às mudanças de estilo de vida, há grande potencial de reversão da esteatose e estabilização da fibrose, evitando progressão para cirrose.
Conclusão e Aprendizados

Principais pontos para a prática clínica:

  • Transaminases normais não excluem doença hepática significativa
  • Ultrassom de abdome é exame complementar fundamental na investigação de queixas hepáticas
  • A esteatose hepática (fígado gorduroso) é a principal causa de doença hepática crônica no Brasil e está fortemente associada à síndrome metabólica
  • Sintomas como fadiga e dor em hipocôndrio direito merecem investigação mesmo com exames laboratoriais normais
  • Mudanças no estilo de vida (dieta e exercício) são a base do tratamento e podem levar à reversão do quadro
📖 Referência: Diretrizes da Sociedade Brasileira de Hepatologia para o manejo da doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD/NASH). Acompanhamento multidisciplinar recomendado.
⚕️ Caso clínico fictício, baseado em situações reais da prática clínica. Os dados são apresentados para fins educativos e não substituem avaliação médica individualizada.

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