Joyce McDougall | As Múltiplas Faces de Eros — As Soluções Neo-Sexuais

AS MÚLTIPLAS FACES DE EROS

Uma exploração psicanalítica da sexualidade humana

Joyce McDougall As Soluções Neo-Sexuais

“Com isso, eu me designo este ta. E por isso — autoconfiante como um crítico de arte — proclamo como verdade a minha convicção de que a construção da excitação erótica é, em cada minúcia, tão sutil, complexa, inspirada, profunda, crescente como as marés, fascinante, terrível, problemática, encharcada de inconsciente e assombrada de genialidade, quanto a criação dos sonhos ou a arte.”

— R. Stoller

Em 1984, fui convidada a apresentar um trabalho no Congresso da International Psychoanalytic Association em Hamburgo, Alemanha, sobre o tema "identificações e perversões de um ponto de vista predominantemente clínico" (McDougall, 1986a). Minha primeira ideia foi de que este foco clínico me permitiria contornar as complexas questões envolvidas na definição daquilo que é e não é perverso na sexualidade humana. Entretanto, meu alívio rapidamente desapareceu. Dado o material clínico disponível que seria adequado a esse propósito, compreendi que qualquer distinção nítida entre psicanálise "teórica" e "clínica" seria artificial. Vinhetas clínicas não provam nada. Servem apenas para ilustrar uma concepção teórica. Justamente por isso, os progressos teóricos são fruto de numerosas experiências clínicas que nos estimularam a reconhecer os impasses e a questionar os nossos conceitos existentes. Ademais, há o risco sempre presente de que as nossas crenças teóricas influenciem indevidamente a nossa técnica, a ponto de que nossos analisandos possam empregar muito de seu processo analítico na tentativa de confirmar as expectativas teóricas de seus analistas! Por todas essas razões, senti-me obrigada a articular algumas ideias sobre aquilo que compreendo pelo termo "perversão sexual".

🔍 O que constitui uma "perversão"?

Adoto um ponto de vista crítico em relação a esta terminologia, uma vez que a palavra perversão sempre leva uma conotação depreciativa, implicando uma degradação, uma virada em direção ao mal. (Nunca se escuta dizer que "fulano foi pervertido para o bom caminho".) Acima e além dessa implicação moralista no emprego vernacular da palavra, nosso padrão de classificações psiquiátricas e psicanalíticas das entidades clínicas é igualmente questionável. Designar alguém como "neurótico", "psicótico", "psicossomático" ou "perverso" pode ter pouca pertinência real, particularmente na medida em que as variações de estrutura psíquica dentro de cada chamada categoria clínica são inumeráveis.

O aspecto notável dos seres humanos em sua estrutura psíquica — como em sua estrutura genética — é sua singularidade. Os sintomas psicológicos são tentativas de cura de si mesmo, de evitar o sofrimento psíquico; este mesmo propósito se aplica às sexualidades sintomáticas. Adotando esse ponto de vista mais construtivo acerca da significação e do propósito subjacentes aos sintomas — e das razões por que vêm a existir —, invariavelmente descobrimos que são soluções infantis para o conflito, a confusão e a dor mental. Defrontados com as dificuldades de sermos humanos, bem como com os conflitos inconscientes de nossos pais, todos nós temos de inventar meios de sobreviver, tanto como indivíduos quanto como seres sexuais — e as soluções que encontramos tendem a durar a vida inteira.

Por cerca de vinte e cinco anos, esforcei-me para descobrir uma definição satisfatória de sexualidade "perversa", do ponto de vista psicanalítico — do que é e do que não é sintomático a propósito dos atos sexuais e dos relacionamentos objetais sexuais. Tomemos, por exemplo, a homossexualidade. É para ser considerada como sintoma em quaisquer circunstâncias? Ou, em quaisquer circunstâncias, como outra versão não-sintomática da sexualidade masculina ou feminina? Os analistas estão nitidamente divididos em suas opiniões sobre esta questão. Leavy (1985), Limentani (1977) e Isay (1985), por exemplo, expressam ideias que diferem das de Socarides (1968, 1978).

A maioria das chamadas sexualidades perversas, tais como fetichismo, práticas sadomasoquistas, voyeurismo e exibicionismo, são complicadas tentativas de manter alguma forma de relações heterossexuais. De fato, as questões clínicas das relações heterossexuais não são mais claras do que as que se referem aos atos e escolhas objetais homossexuais. A natureza polimorfa da atividade heterossexual adulta não-perversa dispensa ênfase. Nossos analisandos descrevem uma variedade infinita de roteiros eróticos, inclusive travestismo, o uso de objetos e adornos fetichistas, jogos sadomasoquistas, etc., que acontecem na qualidade de interlúdios em suas relações sexuais, talvez pondo fogo no prazer erótico dentro de um relacionamento amoroso estável. Essas práticas não despertam conflito, uma vez que não são sentidas como compulsivas ou como condições exclusivas para o prazer sexual.

⚖️ Quando a sexualidade se torna problema analisável?

Há, depois, os pacientes heterossexuais que só têm roteiros fetichistas ou sadomasoquistas à disposição para poderem empenhar-se num relacionamento heterossexual. Como com determinados pacientes homossexuais, poderíamos desejar que esses analisandos fossem um pouco menos restritos e menos sujeitos a condições inexoráveis em suas vidas sexuais. Porém, se essas peças do teatro erótico são a única condição que lhes permite o acesso às relações sexuais, deveremos ter cuidado quanto a desejar que percam essas versões heterodoxas dos objetos do desejo, simplesmente porque podemos considerá-las sintomáticas!

A maioria das pessoas vivencia seus atos eróticos e escolhas objetais como egossintônicos, sejam ou não julgados "perversos" pelos outros. As variedades específicas da preferência sexual só se tornam problema analisável na medida em que os indivíduos envolvidos considerem sua forma normal de sexualidade como fonte de sofrimento e, portanto, a vivenciem como egodistônica. Este problema surge com homens homossexuais (e, menos extensamente, com mulheres lésbicas) que sentem que deveriam ser heterossexuais por causa da opinião familiar, das normas da sociedade, dos preceitos religiosos, etc. Nessas circunstâncias, pode surgir um feroz conflito interior, acompanhado por sentimentos de culpa ou vergonha, apesar do fato de os atos ou relacionamentos sexuais em questão serem os únicos que trazem prazer e, algumas vezes, os únicos que sustentam a promessa de um relacionamento amoroso.

Alguns analisandos homossexuais podem vir a descobrir que são heterossexuais "latentes" e seriam mais felizes buscando relacionamentos heterossexuais. Mas não são a maioria. A maior parte dos homens e mulheres homossexuais acham vitalmente importante manter sua identidade e sua orientação homossexuais. Em vista do que está em jogo, só podemos mesmo sentir que estão certos. Conviria também observar que há tantas variedades de atos e tipos de relacionamentos homossexuais quantas há de atos e relações heterossexuais. Há também aquilo que poderia ser chamado de "homossexualidades desviantes", que exigem acréscimos fetichistas como sapatos ou chicotes, ou condições sadomasoquistas de dor ou humilhação, a fim de atingir o envolvimento sexual satisfatório.

💡 O risco da perda da solução erótica

Qualquer que seja a modalidade sexual, os próprios analisandos raramente desejam perder suas soluções eróticas. Uma certa quantidade de pacientes, sob o impacto da aventura analítica, desenvolvem relacionamentos eróticos e íntimos mais ricos. Entretanto, se esse feliz resultado não ocorrer, perder o único sistema de sobrevivência sexual de que dispõem seria o equivalente da castração. E, mais do que isso, em muitos casos, esses roteiros eróticos intrincados e inelutáveis servem não apenas para salvaguardar o sentimento de identidade sexual que acompanha o prazer sexual, porém frequentemente revelam-se como técnicas de sobrevivência psíquica que são exigidas para preservar também o sentimento de identidade subjetiva.

🎯 Síntese da perspectiva de McDougall:

A autora propõe uma visão radicalmente clínica e antidogmática: as chamadas "perversões" são, antes de tudo, soluções criativas e singulares que cada sujeito inventa para lidar com os conflitos primitivos, a dor psíquica e a herança inconsciente familiar. O critério para a intervenção analítica não deve ser o conteúdo da fantasia erótica ou a orientação objetal, mas sim o sofrimento subjetivo (egodistonia) e a rigidez compulsiva que impede a riqueza e a fluidez do desejo. A tarefa da análise não é "curar" uma suposta perversão, mas ampliar o leque de possibilidades eróticas e relacionais do sujeito, respeitando sua singularidade.

“Os sintomas psicológicos são tentativas de cura de si mesmo, de evitar o sofrimento psíquico; este mesmo propósito se aplica às sexualidades sintomáticas.”
— Joyce McDougall, As Múltiplas Faces de Eros

[pp. 185-188 da edição brasileira]

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