AS MÚLTIPLAS FACES DE EROS
Uma exploração psicanalítica da sexualidade humana
As primeiras formulações de Freud (1905) conceituavam as perversões e as inversões como vicissitudes da pulsão sexual, devidas a fixações a estágios iniciais do desenvolvimento libidinal. Porém, por volta de 1920 (1915b, 1922), Freud tinha ligado o mistério da criação das perversões e inversões à organização edipiana interna e às fantasias de cena primária. Não há necessidade de recapitular a bem-reconhecida importância das identificações do superego nas estruturas psicossexuais.
📌 A linguagem e a subestrutura arcaica
Entretanto, é importante lembrar que essas estruturas que são criadas, em larga medida, por meio da linguagem (explicações verbais, encorajamentos e proibições promulgadas durante a infância) são, elas próprias, fundadas sobre uma subestrutura arcaica que precede a aquisição da linguagem. Conquanto seja tentador aceitar a facilidade do arcabouço conceitual de Freud a propósito do importante (e clinicamente confirmado) papel da fase fálico-edipiana na sexualidade desviante, essa explicação não é suficiente; o próprio Freud veio a questionar a adequação de suas teorias a esse respeito.
🧬 Incorporação e introjeção: antes da identificação
Na tentativa de conceituar as internalizações que ocorrem nas primeiras trocas sensoriais entre mãe e bebê, os termos incorporação e introjeção são mais apropriados do que identificação. Nesse estágio do desenvolvimento, os temores e desejos inconscientes da mãe desempenham um papel predominante na estruturação inicial do psiquismo. Só à medida que, lentamente, a comunicação simbólica toma o lugar do contato corporal entre a criança e seus pais é que as identificações e contra-identificações sexuais se tornam parte permanente do capital psíquico de cada criança.
Ao mesmo tempo, o esquema corporal fica consolidado. É a mãe quem primeiro nomeia para seus filhos as zonas erógenas deles e comunica, de múltiplas maneiras, o investimento ou o contra-investimento narcísico e libidinal que essas zonas — e as funções a elas associadas — devem receber. A própria existência de determinados órgãos e funções corporais pode ser virtualmente negada em algumas famílias. A mãe, por causa de sua própria aflição interior acerca dos investimentos zonais e das proibições sexuais, pode prontamente transmitir a seus filhos uma imagem corporal que é frágil, alienada, desprovida de erotismo ou mesmo mutilada.
📖 O falo como símbolo: Muito se tem escrito, mas ainda resta muito a dizer, acerca da representação fundamental do pênis, que, de acordo com sua natureza como objeto parcial introjetado, determina o papel e o poder organizador do falo como símbolo. Como já observei, o falo não se refere ao objeto parcial em si mesmo, mas a uma efigie do pênis ereto que, como nos ritos de fertilidade da Grécia antiga, simboliza a fertilidade e o desejo sexual. Como tal, o falo não pertence a nenhum sexo; em vez disso, ele organiza a constelação introjetiva e as fantasias fundamentais que determinam as organizações psicossexuais adultas para os dois sexos.
⚡ Quando o falo perde seu valor simbólico
Quando despido de seu valor simbólico, para ambos os sexos, o falo pode ser reduzido ao status de objeto parcial e, então, dividido em duas imagens distintas de pênis: um objeto persecutório que deve ser odiado ou evitado e um objeto idealizado e inatingível que deve ser incansavelmente buscado. Conquanto essas duas representações do pênis proporcionem uma fonte dinâmica de fantasia inconsciente e influenciem a ulterior escolha de atos sexuais, assim como as escolhas objetais, ambas perderam qualquer papel simbólico fundamental.
🧬 O investimento materno e o "massacre simbólico"
Algumas vezes, antes do nascimento de seu bebê, a mãe pode, consciente ou inconscientemente, considerar seu filho extensão libidinal ou narcísica dela mesma, destinada a reparar um sentimento de dano pessoal interior. Esse tipo de investimento materno frequentemente leva a um desejo de excluir o pai em seus dois papéis — real e simbólico. Se, além disso, o pai opta por aceitar o papel passivo, então os terrores e desejos libidinais arcaicos, próprios do bebê, podem não ser elaborados e harmoniosamente integrados à representação sexual do self adulto, criando dessa forma aquilo que poderia ser chamado de "massacre simbólico".
Em suma, proponho que indivíduos que criam uma neo-realidade e neonecessidades em termos de atos e objetos sexuais, a serviço de homeostases libidinais e narcísicas, fizeram um curto-circuito na elaboração da angústia de castração fálico-edipiana; ao mesmo tempo, ao recusarem os problemas da situação de separação e do sadismo infantil, também contornaram aquilo que Klein denominou "elaboração da posição depressiva".
“As crianças que estão fadadas a desenvolver um comportamento sexualmente desviante na vida adulta, inicialmente criaram seu teatro erótico como tentativa protetora de cura de si mesmas.”
— Joyce McDougall, As Múltiplas Faces de Eros
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