Joyce McDougall | As Múltiplas Faces de Eros — O que significa "escolha objetal"?

AS MÚLTIPLAS FACES DE EROS

Uma exploração psicanalítica da sexualidade humana

Joyce McDougall O que significa "escolha objetal"? — Continuação de "As Soluções Neo-Sexuais"

Ninguém escolhe livremente empenhar-se nas condições altamente restritivas e exigentes impostas pelas invenções neo-sexuais compulsivas ou na solidão de uma vida largamente confinada a criações sexuais autoeróticas. Do mesmo modo, pouca gente tem a impressão de "escolher" ser homossexual numa sociedade predominantemente heterossexual ou, por essa razão, de "escolher" a heterossexualidade a fim de adaptar-se à maioria social.

📌 A "escolha" como solução infantil

No que se refere às invenções desviantes heterossexuais, homossexuais e autoeróticas, essas chamadas escolhas representam as melhores soluções possíveis que a criança do passado foi capaz de encontrar diante das comunicações parentais contraditórias a propósito da identidade de gênero, da masculinidade, da feminilidade e do papel sexual. Essas soluções são vivenciadas pela criança ou pelo adolescente como uma revelação de sua forma de expressão sexual, juntamente com o reconhecimento, às vezes doloroso, de que essa sexualidade é algo diferente da dos outros. Certamente ninguém se apercebe de ter escolhido isso.

🧬 A distinção de Burch: homossexualidade "primária" e "bissexual"

Entretanto, diversos autores, em especial aqueles envolvidos com a pesquisa da natureza das identidades homossexuais, distinguiram uma modalidade que é considerada como uma "escolha", por exemplo a distinção feita por Burch (1989) entre a mulher lésbica "primária" e a mulher "bissexual" que escolhe uma vida amorosa lésbica após alguns anos de relacionamentos heterossexuais. Talvez a mulher "bissexual" da formulação de Burch não esteja escolhendo, mas sim finalmente assumindo seu desejo e sua identidade lésbica.

📖 Sobre a "escolha" e a aceitação tardia: É claro que essa aceitação é uma escolha consciente, mas não significa necessariamente que o indivíduo tivesse "escolhido" os profundos investimentos libidinais e orientações que estão envolvidos e que, talvez, tenham sido fortemente contra-investidos até seu reconhecimento atrasado. Esta possibilidade não invalida ou exclui a tese de que há acentuadas diferenças de estrutura psíquica entre esses dois grupos.

Neste capítulo e nos seguintes, considero duas importantes questões teórico-clínicas a propósito do desvio sexual: primeiramente, as considerações etiológicas e qualitativas e, segundo, os aspectos quantitativos conforme se manifestam na economia psíquica. Os dois tópicos estão intimamente ligados aos processos de internalização nas organizações sexuais desviantes — e essa internalização envolve, invariavelmente, uma certa medida de insucesso na integração e harmonização das diversas incorporações e introjeções que vão se estruturando a partir do nascimento.

🎯 O que significa "escolha objetal" na perspectiva de McDougall?

Para McDougall, o termo "escolha objetal" — cunhado por Freud para designar a direção do desejo em relação a um objeto (do mesmo sexo ou do sexo oposto) — não deve ser entendido como uma escolha livre e consciente. Trata-se, antes, de uma solução inconsciente, forjada na infância para lidar com os conflitos, as mensagens contraditórias e os silêncios dos pais. Essa solução é vivenciada como algo dado, descoberto, imposto — não como algo deliberadamente selecionado. A ideia de "escolha" só pode fazer sentido no nível da aceitação consciente de uma orientação já constituída, ou na distinção entre diferentes estruturas psíquicas (como a homossexualidade "primária" versus a "bissexual" que assume sua identidade tardiamente).

A ênfase recai, portanto, sobre os processos de internalização que moldam a subjetividade desde o início da vida. A chamada "escolha objetal" é, na verdade, o resultado de um longo trabalho psíquico de incorporação e rejeição de imagos parentais, marcado por sucessos e fracassos na integração das identificações.

“Essas chamadas escolhas representam as melhores soluções possíveis que a criança do passado foi capaz de encontrar diante das comunicações parentais contraditórias.”
— Joyce McDougall, As Múltiplas Faces de Eros

[pp. 193-194 da edição brasileira]

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