AS MÚLTIPLAS FACES DE EROS
Uma exploração psicanalítica da sexualidade humana
No âmbito da vida de fantasia erótica, todo o mundo é livre de constrangimento externo; os únicos fatores inibidores são aqueles impostos pelas figuras parentais internas. Devemos perguntar-nos se existe isto que se chama de fantasia "perversa" — e, se existir, teremos de estar preparados para definir aquilo que poderíamos querer indicar como fantasia erótica "normal".
📌 A definição de McDougall: quando o termo "perversão" se justifica
Na minha opinião, o único aspecto de uma fantasia que poderia legitimamente ser descrito como perverso seria a tentativa de impor a imaginação erótica a um outro que não consentisse nisso ou que não fosse responsável.
Em geral, eu reservaria o termo "perversão" como um rótulo para atos em que um indivíduo:
(1) impõe desejos e condições pessoais a alguém que não deseja ser incluído naquele roteiro sexual (como no caso do estupro, do voyeurismo e do exibicionismo) ou
(2) seduz um indivíduo não-responsável (como uma criança ou um adulto mentalmente perturbado).
Talvez, em última análise, só os relacionamentos possam ser adequadamente intitulados perversos; este rótulo se aplicaria então a trocas sexuais nas quais o indivíduo perverso é totalmente indiferente às necessidades e desejos do outro.
🧬 A questão pertinente: desvio ou simples variação?
Desse ponto de vista, a questão pertinente não é quais atos e preferências são desviantes, mas sim sob que circunstâncias o desvio deve ser considerado como simples variação da sexualidade adulta, no contexto de um relacionamento objetal significativo, e quando deve ser julgado sintomático. Eu aplicaria esta pergunta igualmente às heterossexualidades, às homossexualidades e às sexualidades autoeróticas.
A qualidade de um relacionamento não pode ser avaliada a partir de sinais puramente externos. Há fatores psíquicos tanto qualitativos quanto quantitativos a serem levados em conta: os aspectos qualitativos se referem à estrutura psicossexual dinâmica do indivíduo, e os quantitativos, ao papel da atividade sexual na sua economia psíquica. As modalidades sexuais humanas, como Freud foi o primeiro a indicar, não são inatas; elas são criadas.
As imagens introjetivas lentamente revelam-se no palco psicanalítico, como os muitos atores num teatro. O discurso parental acerca da sexualidade, o qual prossegue por toda a infância, desempenha um papel capital na estrutura psíquica de todo indivíduo.
📖 A criação da sexualidade: “As modalidades sexuais humanas não são inatas; elas são criadas.” — Esta afirmação de McDougall ecoa a intuição freudiana sobre a natureza adquirida e construída da sexualidade humana, em oposição a qualquer visão meramente instintual ou biológica.
🧬 As solicitações inconscientes dos pais
Porém, acima e além da interpretação que as crianças fazem das comunicações de seus pais, assim como de seus impressionantes silêncios, estão as poderosas identificações e operações defensivas que elas constroem em relação àquilo que compreendem acerca dos conflitos sexuais e dos desejos eróticos inconscientes dos pais, bem como do papel que secretamente são solicitadas a representar aí. As solicitações inconscientes muitas vezes contradizem aquilo que é conscientemente comunicado, criando conflito e confusão na mente da criança. Esses mesmos conflitos e confusões mais tarde manifestam-se na situação analítica e podem exigir alguns anos para se desenredarem.
McDougall propõe uma virada ética radical: o que define uma prática como "perversa" não é o seu conteúdo (que pode ser compartilhado por sujeitos neuróticos, psicóticos ou ditos "normais"), mas sim a qualidade da relação com o outro. Quando o outro é reduzido a um objeto de satisfação unilateral, quando seu consentimento e sua subjetividade são anulados, aí sim podemos falar de uma organização perversa. Fora disso, estamos diante das infinitas e criativas variações da sexualidade humana, cada qual com sua história, seus conflitos e suas soluções singulares.
“A questão pertinente não é quais atos e preferências são desviantes, mas sim sob que circunstâncias o desvio deve ser considerado como simples variação da sexualidade adulta, no contexto de um relacionamento objetal significativo, e quando deve ser julgado sintomático.”
— Joyce McDougall, As Múltiplas Faces de Eros
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