AS MÚLTIPLAS FACES DE EROS
Uma exploração psicanalítica da sexualidade humana
Para enfatizar o caráter inovador e a intensidade dos investimentos envolvidos, refiro-me às heterossexualidades desviantes e às homossexualidades desviantes como "neo-sexualidades". Esta nomenclatura utiliza o conceito de neo-realidades, que são criadas por frágeis pacientes fronteiriços numa tentativa ilusória — ou mesmo delirante — de encontrar solução para conflitos esmagadores. Nos desvios, tanto heterossexuais quanto homossexuais, a necessidade de reinventar o ato sexual habitualmente pode ser rastreada até acontecimentos infantis perturbadores ou comunicações desencaminhadoras a propósito da identidade sexual, dos papéis sexuais e dos conceitos de feminilidade e masculinidade. Nesses casos, os relacionamentos adultos com parceiros exigem complicadas manobras, condições e figurinos, à maneira das encenações teatrais.
⚡ A distinção freudiana entre inversão e perversão
Os analistas que consideram a homossexualidade em geral como formação patológica e "uma perversão sexual como qualquer outra" muitas vezes questionam a validade da diferenciação entre homossexuais e inventores neo-sexuais. O próprio Freud (1905) fez uma distinção entre as homossexualidades e as formas heterossexuais de sexualidades desviantes. Ele se referiu à homossexualidade como "inversão" e ao comportamento desviante dos fetichistas, dos exibicionistas, dos sadomasoquistas, etc., como "perversão". Como ele próprio as definiu, ambas referiam-se a uma "deflexão do objetivo ou alvo sexual original".
📚 Inversão × Perversão — uma diferenciação pertinente
A diferenciação feita por Freud entre inversão e perversão é pertinente porque, frequentemente, há importantes diferenças dinâmicas e estruturais entre os dois tipos de organização psicossexual. Ao mesmo tempo, muitos analistas têm observado similaridades entre as estruturas edipianas deles. Por exemplo, esses analisandos relatam com frequência:
- Um relacionamento indevidamente próximo com a mãe, algumas vezes com sobretons incestuosos, e o pai é vivenciado como desvalorizado ou excluído de seu papel simbólico na constelação edipiana.
- Outros relatam uma história de sedução pelo pai, na qual a mãe parece ter desempenhado um papel de cúmplice; ou uma história de negligência por parte da mãe na qual esta, por quaisquer razões, emerge como tendo desinvestido esse filho em especial.
Complicando ainda mais o quadro clínico, um determinado número de analisandos, cuja sexualidade não é homossexualmente orientada nem desviante no sentido de uma invenção neo-sexual, também apresentam modalidades parentais semelhantes!
📖 Sobre a definição freudiana: “A inversão (homossexualidade) e a perversão (fetichismo, sadomasoquismo, etc.) ambas representam uma deflexão do objetivo ou alvo sexual original, mas diferem em sua estrutura dinâmica e nas fantasias inconscientes subjacentes.” — Freud, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905)
As variações da estrutura psicossexual são tão grandes que somos obrigados a falar no plural — de heterossexualidades e homossexualidades. A estas é preciso também acrescentar a categoria das sexualidades autoeróticas, uma vez que muitas práticas sadomasoquistas, fetichistas e de travestismo são executadas na solidão. Esses atos poderiam ser considerados formas desviantes de masturbação, nas quais apenas a fantasia não é suficiente: é preciso pôr em ação dramas eróticos condensados.
🧬 Síntese: a singularidade das neo-sexualidades
O conceito de neo-sexualidade proposto por McDougall busca nomear aquelas construções eróticas que, diferentemente das homossexualidades não-sintomáticas ou das heterossexualidades polimorfas, envolvem uma reinvenção compulsiva do cenário sexual como tentativa de resolver conflitos psíquicos primitivos relacionados à identidade, à diferença sexual e ao reconhecimento da alteridade. Trata-se de uma solução criativa, porém rígida, que confere ao sujeito uma pseudocerteza identitária às custas da fluidez do desejo e da espontaneidade do encontro com o outro.
A análise dessas formações não visa à sua "cura" ou eliminação, mas sim à ampliação do repertório erótico e relacional, permitindo que o sujeito possa investir em outras modalidades de prazer e de vínculo, sem que se sinta ameaçado de desintegração psíquica.
“As variações da estrutura psicossexual são tão grandes que somos obrigados a falar no plural — de heterossexualidades e homossexualidades.”
— Joyce McDougall, As Múltiplas Faces de Eros
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