AS MÚLTIPLAS FACES DE EROS
Uma exploração psicanalítica da sexualidade humana
É interessante observar que Freud (1930) definiu sublimação exatamente nos mesmos termos que utilizou para definir perversão sexual! Isso é compreensível uma vez que muitos desvios sexuais são verdadeiras criações. Algumas vezes, assemelham-se a complicadas peças teatrais que são minuciosamente planejadas com dias ou semanas de antecedência.
🎭 O exibicionista e o palco do Bois de Boulogne
Lembro-me de um exibicionista que fotografava, de diferentes ângulos, o local exato em que pretendia exibir-se no Bois de Boulogne, levando em consideração os caminhos de pedestres e as vias para veículos ao longo dos quais era esperado que seus potenciais "parceiros" surgissem para participar de seu espetáculo. O roteiro era planejado assim como um pintor poderia planejar uma importante exposição de sua obra ou um produtor, a sua apresentação teatral.
🎬 O fetichista e "O espectador anônimo"
Outro analisando, um fetichista cuja peça de teatro, na minha opinião, merecia o título de "O espectador anônimo" (McDougall, 1978a), compunha durante semanas as cenas que imaginava, antes de levá-las "ao palco". Vinha então a estreia triunfal — diante do espelho —, na qual ele representava todos os papéis, o do público anônimo olhando no espelho, onde "uma mãe estava espancando uma menininha", assim como o do ator principal refletido no espelho, sendo chicoteado nas nádegas. Assim como acontecia com o exibicionista, era frequente que a premeditação e o meticuloso planejamento do roteiro antes que este estivesse pronto para ser tornado "público" parecessem ser mais investidos do que o ato em si mesmo.
🎼 O pedófilo e as fantasias urdidas
Um paciente pedófilo, cujo caso acompanhei em supervisão, também demonstrava planejamento criativo. Durante dias ele perambulava em lojas de artigos de sexo e ficava de pé à entrada de diferentes estabelecimentos escolares, urdindo fantasias em resposta à visão deste ou daquele jovem adolescente com quem imaginava-se empenhado em apaixonado relacionamento. Era também importante que o garoto escolhido se interessasse por arte, assim como o próprio analisando, e esta qualidade ficava incorporada às suas fantasias. Sua atuação era altamente restrita; tinha de seguir uma determinada modalidade na qual ele ficava convencido de que era o adolescente quem queria o relacionamento e quem iniciava o processo de sedução.
✨ Criatividade sexual e criatividade sublimatória
Para todos esses indivíduos, suas elaboradas construções representam não apenas seu único recurso de expressão sexual, mas também uma dimensão de suas vidas diárias que é tão vital para seu equilíbrio psíquico quanto o são suas atividades sublimatórias. (O exibicionista trabalhava no campo da publicidade artística; o fetichista era professor de filosofia; o pedófilo, professor de música.) É plausível propor que suas construções sexuais, como os investimentos libidinais sublimados que davam qualidade ao trabalho profissional deles, brotavam como soluções a partir das mesmas fontes primitivas do conflito psíquico.
📖 A função do devaneio: Na economia psíquica da humanidade, uma das principais funções do devaneio é ser capaz de realizar na imaginação aquilo que é tido como proibido ou impossível de atuar na realidade. Assim, uma capacidade restringida de utilizar a fantasia, como a que é manifestada em muitas sexualidades desviantes, evidencia algum colapso nas importantes introjeções que têm lugar naquilo que Winnicott (1951) chamou de fenômenos transicionais, com a consequente falência na capacidade de criar livremente uma ilusão no espaço que separa um ser de outro e na de usar uma variedade de ilusões para suportar ausência, frustração e demora. Voltarei a este importante ponto na discussão da sexualidade adictiva, no próximo capítulo.
🧬 Perversão e sublimação: duas faces da mesma moeda?
A observação de McDougall resgata a intuição freudiana original: perversão e sublimação compartilham a mesma matriz criativa. Ambas são construções psíquicas que transformam as pulsões primitivas em formas de expressão investidas de intenso significado subjetivo. A diferença não reside na "natureza" do investimento, mas na flexibilidade e na capacidade de integração do sujeito. Enquanto a sublimação permite um diálogo fluido entre diferentes esferas da vida (sexualidade, trabalho, arte), a perversão — especialmente em sua versão "neo-sexual" — impõe uma rigidez ritualística que protege o sujeito do encontro com a alteridade e com a castração simbólica, mas à custa da espontaneidade e da capacidade de ilusão compartilhada.
Em todos os outros aspectos, os criadores neo-sexuais diferem pouco das chamadas pessoas normais, que investem suas pulsões e seus relacionamentos sexuais com significação igualmente vital, tanto quanto a sublimação destes em seu trabalho profissional.
“Suas construções sexuais, como os investimentos libidinais sublimados que davam qualidade ao trabalho profissional deles, brotavam como soluções a partir das mesmas fontes primitivas do conflito psíquico.”
— Joyce McDougall, As Múltiplas Faces de Eros
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