O cacau, a bruxa e os motivos nobres | Paula Schmitt

O cacau, a bruxa e os motivos nobres

Praga que dizimou produção de cacau no país foi ataque bioterrorista, mas investigação foi encerrada sem apontar culpados

“No fim de 94, ele começou a entristecer.” É assim que a dona-de-casa Noélia Gomes começa a contar a dor que levou seu marido Deodato, plantador de cacau na Bahia. Depois de anos de vida digna, tirando seu sustento da terra e devolvendo sustento a ela, Deodato foi perdendo a plantação para a praga da vassoura-de-bruxa. Suas árvores estavam morrendo, e ele foi morrendo junto. A família já não tinha dinheiro para fazer a feira, pagar eletricidade ou água. Os bancos deixaram de fazer empréstimo. O mais triste, contudo, ainda não era do conhecimento de Deodato: a praga que estava destruindo milhões de vidas não veio pelas mãos de um Deus abraâmico nem por desígnio da natureza – ela foi uma obra puramente humana.

E assim Deodato ia definhando sob os olhos preocupados da sua mulher. Para evitar o pior, Noélia escondeu do marido o que podia: arma, gilete, faca, veneno. Mas um dia, ele trouxe um rolo de corda para casa. “Se eu pudesse, eu casaria com você de novo”, o marido disse à companheira de tristeza e doença, jurando que ela seria novamente escolhida numa outra vida de alegria e saúde. Naquela mesma noite, no escuro da alma, Deodato fez um nó corrediço na corda e finalmente arrematou seu sofrimento.

“O nó que causou a morte de Deodato veio bem antes daquele que o enforcou. Ele foi usado para amarrar espécimes do fungo Moniliophtora perniciosa em volta dos troncos de árvores de cacau na Bahia.”

Numa das histórias mais funestas e desconhecidas do grande público, o Brasil foi palco nos anos 80 e 90 de ataque bioterrorista que destruiu 600 mil hectares de plantação de cacau, aniquilou milhares de pequenas lavouras, acabou com o trabalho de mais de 200 mil pessoas e transformou outras 800 mil em retirantes, transformando periferias em favelas, e causando caos social e mental.

Naquela época, o Brasil era um dos maiores produtores de cacau do mundo — o 2º maior exportador. Depois, passou a ser importador. A Bahia era “o centro do universo do cacau”. A produção na região caiu quase 75%, e o Brasil foi de 3º maior produtor mundial para o 13º lugar. Claudio Dessimoni, lavrador que perdeu sua lavoura, conta uma história parecida com a de Noélia, com a diferença que sua mulher morreu de tristeza, sem precisar usar as próprias mãos.

📽️ O documentário “O Nó – Ato Humano Deliberado”

A tragédia de Deodato foi contada neste documentário disponível no YouTube. Com dezenas de entrevistas, o filme documenta um dos casos mais obscuros da nossa história recente, deixando para o final a origem do crime: a destruição das plantações teria sido arquitetada por funcionários do próprio órgão criado para fomentar a produção de cacau nacional, a Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira).

Resquícios de uma reportagem bombástica aparecem em um artigo do então colunista da Veja Reinaldo Azevedo. Sob o título “O Bioterrorismo dos Petistas”, ele conta que o técnico em administração Luiz Henrique Franco Timóteo, 54 anos, foi ouvido pela Polícia Federal e confirmou ter sido um dos responsáveis pela disseminação proposital da praga. Conforme afirmara em reportagem publicada por VEJA, Franco Timóteo confirmou que agiu em conjunto com cinco funcionários da Ceplac, todos militantes petistas, e decidiram sabotar as plantações do sul da Bahia para minar o poder político e econômico dos “barões do cacau”.

Para minha surpresa, contudo, os culpados até hoje não foram encontrados. É isso mesmo. Enquanto não parece haver dúvida de que houve um crime, ninguém foi considerado culpado – nem mesmo o homem que confessou. Assim, um dos maiores ataques bioterroristas já catalogados terminou como começou: um crime sem criminoso.

No documentário, 6 anos depois do depoimento de Timóteo à polícia, o réu confesso repete sua confissão e mantém sua culpa – mas muda a razão do crime. Na versão original, ele diz que cometeu a atrocidade para acabar com os “barões do cacau”. Já no documentário, Timóteo reescreve suas razões: milhões de árvores foram destruídas e milhares de vidas tiveram seu sustento ceifado para provar que a Ceplac era necessária. O Brasil perdeu seu posto entre os maiores exportadores mundiais de cacau para que todos entendessem que a Ceplac era importante para a indústria do cacau.

“A vassoura-de-bruxa é nativa da Amazônia, e era extremamente suspeito que vários focos da doença tivessem começado a milhares de quilômetros da Amazônia de forma simultânea, em locais distantes uns dos outros. A praga não poderia ter ‘pulado’ como um canguru sem contaminar os espaços entre um foco e outro.”

Talvez ainda mais sinistro do que o ataque biológico foram as recomendações da Ceplac para o combate da praga, porque suas recomendações pioraram o problema e contribuíram para a destruição das plantações que não tinham sido atingidas. A própria Ceplac admite que errou nas suas recomendações inexplicáveis. Para alguns entrevistados, as ações da Ceplac foram extremamente suspeitas.

No documentário, Timóteo se apresenta: “Meu nome é Luis Henrique Franco Timóteo, e eu fui um dos idealizadores da introdução da vassoura-de-bruxa na Bahia”. Explica que a Ceplac iria demitir a maioria dos funcionários, e que sua intenção era “mostrar ao Brasil e à opinião pública e ao Ministério da Agricultura que a Ceplac era viável ainda em defesa da agricultura do cacau”.

🕵️‍♂️ “Limited hangout” – a exposição limitada

A articulista propõe uma interpretação alternativa: um conceito da espionagem chamado limited hangout (exposição limitada). Quando uma operação clandestina é descoberta, a solução é fingir que ela foi cometida por uma razão nobre, e não uma razão torpe. O público, intrigado com a nova informação, nunca vai mais a fundo na busca da verdade. No caso da vassoura-de-bruxa, a confissão seria tão horrível que muitos se dariam por satisfeitos, convencidos de que nada poderia ser pior que aquilo.

Operações secretas não precisam necessariamente contar com um Plano B, mas com um “Culpado B” – alguém que possa ser acionado como responsável se as coisas não saírem como planejadas. Em 1991, no auge da praga, a revista New Scientist já aventava a hipótese de que a tragédia teria sido um ato de sabotagem. Qual teria sido o objetivo? Alguns especialistas questionavam a possibilidade de que a praga teria sido provocada por competidores no mercado internacional.

Um artigo da Scientific American fala das “vantagens” da modificação genética (e consequente patenteamento) de novas variantes do cacau, como aconteceu com o trigo e o milho – culturas que hoje são praticamente propriedade privada. O autor desse artigo é Harold Schmitz, cientista chefe da empresa Mars, uma das maiores fabricantes de chocolate do mundo. A Mars se uniu à IBM e ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para sequenciar o genoma do cacau. Segundo a Reuters, as variedades sequenciadas não seriam patenteadas.


“A praga que estava destruindo milhões de vidas não veio pelas mãos de um Deus abraâmico nem por desígnio da natureza – ela foi uma obra puramente humana.” O bioterrorismo do cacau permanece como ferida aberta na história brasileira: vidas destruídas, um crime sem punição e perguntas que ainda aguardam respostas.

📖 Nota: Este texto é uma adaptação do artigo original publicado no Poder360 em 28 de abril de 2023, de autoria de Paula Schmitt. O conteúdo aqui apresentado respeita a integridade jornalística e os direitos autorais, sendo reproduzido para fins de estudo e reflexão.
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Leia o texto original em: poder360.com.br/opiniao/o-cacau-a-bruxa-e-os-motivos-nobres

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