Sobre a Tirania
Pós-verdade significa pré-fascismo
“Repelir os factos é repelir a liberdade.” — Timothy Snyder
Editado nos EUA após a vitória de Trump, este livro de Timothy Snyder procura vir ao encontro da urgência do presente, indo diretamente ao assunto. Não haverá desculpa para o evitar, até porque as suas cerca de cem páginas se podem ler num par de horas e sem perder fôlego.
Snyder é historiador e professor da Universidade de Yale, e um dos seus últimos livros – Bloodlands: Europe between Hitler and Stalin (Basic Books, 2010) – obteve em 2013 o Hannah Arendt Prize for Political Thought.
📚 Referências que moldam a resistência
Nesta sua reflexão no contexto do imediato pós-Trump, Snyder aborda a certa altura um conjunto de referências que vão desde a ficção à história, querendo dizer-nos basicamente que nos andamos a perder na Internet e que do que necessitamos é de nos reencontrarmos com determinantes da nossa memória, de Ray Bradbury a Orwell, de Victor Klemperer a Arendt, ou de Václav Havel a Tony Judt, com quem aliás Snyder assinou Thinking the Twentieth Century (Penguin Books, 2012).
Mas também com Harry Potter e os Talismãs da Morte, que segundo Snyder aborda justamente o tema da tirania e da resistência – “se tu, os teus filhos ou os teus amigos não o leram assim da primeira vez, então o livro pede uma nova leitura” (p. 51). Sobre a Tirania procura ser assim um alerta para a reemergência da besta na barriga do monstro. Ele, em todo o caso, tem alguma relutância em dizer que ventre é esse, quem gera efetivamente o monstro, e ao evitar esta questão de modo frontal tergiversa também relativamente ao fundamental nesta discussão sobre o presente.
🔐 Privacidade, totalitarismo e os media
Uma outra análise muito interessante de Timothy Snyder prende-se com a relação que estabelece entre o totalitarismo e a perda ou a violação da privacidade eletrónica dos cidadãos. Considera que “o roubo, a discussão ou a publicação de comunicações pessoais destrói um fundamento essencial dos nossos direitos” (p. 72). Os media e os jornalistas, aliás, não ficam nada bem nesta análise de Snyder: “os meios de comunicação social acabaram por passar ao lado dos verdadeiros acontecimentos da atualidade. Ao invés de darem conhecimento da violação dos direitos básicos (…) optaram na generalidade dos casos por ceder ao interesse inerentemente impudico que temos nos assuntos das outras pessoas” (p. 73).
Porém, concede que “o trabalho daqueles que se mantêm fiéis a uma ética do jornalismo é de uma espécie diferente do trabalho do que não partilham dessa ética” (p. 62). E assume que a luta pela verdade na era da Internet está no centro da política e do processo de decisão contemporâneo – um pouco como em Michel Puech quando o filósofo francês se refere às micro-ações dos indivíduos como algo decisivo nesta chamada “mediarquia” – defendendo que “cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona” (p. 64), havendo efetivamente uma responsabilidade individual para com o problema que envolve a informação e a verdade.
Isto porque, para Snyder, "repelir os factos é repelir a liberdade" (p. 53). E, justamente, em torno do problema contemporâneo da verdade e dos media, o autor incide sobre outro dos temas centrais desta sua obra, onde os factos alternativos e a perseguição pelos populistas quer da transparência da informação quer da ética do jornalismo, e a pós-verdade “restabelece(m) precisamente a atitude fascista perante a verdade” (p. 57). Algo que não deixa de estar influenciado pelo cada vez maior reforço das oligarquias e dos autoritarismos que, segundo Snyder, potenciam claramente a sua ameaça suportada numa globalização que tem vindo a acelerar as desigualdades e a distribuição de riqueza (p. 25).
🧬 A urgência do presente
A análise de Cádima sublinha o caráter sintético e pedagógico da obra de Snyder: vinte pequenos capítulos que funcionam como um manual de resistência democrática diante da erosão das instituições, da banalização da mentira política e da captura algorítmica da atenção. A referência a Harry Potter não é acidental: a literatura de fantasia, assim como a grande ficção distópica (Orwell, Bradbury, Huxley), antecipou os mecanismos de controle simbólico que hoje se manifestam na política do espetáculo e na economia da desinformação.
“A luta pela verdade na era da Internet está no centro da política e do processo de decisão contemporâneo.”
— Timothy Snyder, Sobre a Tirania
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