Consequências
Revendo os principais aspectos até aqui: a origem da perturbação é dupla. De um lado, está a disposição inata do paciente à destrutividade excessiva, ao ódio e à inveja. De outro lado, o ambiente que, na pior hipótese, nega ao paciente o uso dos mecanismos de cisão e identificação projetiva.
O problema com que se confronta o paciente é: "O que são os objetos de que se apercebe?" Esses objetos, sejam internos ou externos, são de fato objetos parciais e, predominantemente, embora não exclusivamente, aquilo que denominaríamos de funções, e não estruturas morfológicas. Isso é obscurecido pelo fato de que o pensar do paciente é conduzido por meio de objetos concretos, tendendo, assim, a produzir, na mente sofisticada do analista, a impressão de que a preocupação do paciente é com a natureza do objeto concreto.
🔍 Investigação através da identificação projetiva
A natureza das funções que excitam a curiosidade do paciente é por ele investigada através da identificação projetiva. Seus próprios sentimentos, poderosos demais para serem contidos no interior de sua personalidade, estão entre essas funções. A identificação projetiva lhe possibilita investigar seus próprios sentimentos dentro de uma personalidade forte o suficiente para contê-los.
A negação do uso desse mecanismo, seja pela recusa da mãe em servir como receptáculo dos sentimentos do bebê, ou pelo ódio e inveja do paciente, que não pode permitir que a mãe exerça essa função, leva à destruição do elo de ligação entre o bebê e o seio e, consequentemente, a uma grave perturbação do impulso para ser curioso, do qual depende toda a aprendizagem. Está preparado, assim, o caminho para uma grave interrupção do desenvolvimento.
A dupla origem da perturbação (fator constitucional + falha ambiental) conduz a um círculo vicioso: a incapacidade de usar a identificação projetiva como método de comunicação e continência leva à destruição da curiosidade e da capacidade de aprender. O ódio, não podendo ser metabolizado, volta-se contra o próprio aparelho de pensar, fragmentando a capacidade de formar elos entre impressões sensoriais e consciência. O resultado é o predomínio de mecanismos psicóticos, nos quais a identificação projetiva excessiva torna-se o único recurso para lidar com a vida emocional — um recurso que, paradoxalmente, aprofunda a fragmentação e a perseguição.
“O ódio às emoções redunda no ódio à própria vida.” — A restauração, na análise, da capacidade de usar o analista como receptáculo para as identificações projetivas, sem que isso resulte em perseguição ou evacuação violenta, é o caminho para o restabelecimento do elo de ligação e, com ele, da possibilidade de pensamento e desenvolvimento.
“A negação do uso da identificação projetiva leva à destruição do elo de ligação entre o bebê e o seio e, consequentemente, a uma grave perturbação do impulso para ser curioso, do qual depende toda a aprendizagem.”
— W. R. Bion, Ataques ao Elo de Ligação
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