W. R. Bion | Consequências — Ataques ao Elo de Ligação

Consequências

W. R. Bion Conclusão de "Ataques ao Elo de Ligação"
📘 Excerto final do artigo — pp. 106-107 da edição brasileira

Revendo os principais aspectos até aqui: a origem da perturbação é dupla. De um lado, está a disposição inata do paciente à destrutividade excessiva, ao ódio e à inveja. De outro lado, o ambiente que, na pior hipótese, nega ao paciente o uso dos mecanismos de cisão e identificação projetiva.

Em certas ocasiões, os ataques destrutivos ao elo de ligação entre o paciente e o ambiente, ou entre diferentes aspectos da personalidade do paciente, têm origem no paciente; em outras ocasiões, na mãe, embora neste caso e no caso de pacientes psicóticos, jamais possa ser exclusivamente na mãe. As perturbações se iniciam com a própria vida.

O problema com que se confronta o paciente é: "O que são os objetos de que se apercebe?" Esses objetos, sejam internos ou externos, são de fato objetos parciais e, predominantemente, embora não exclusivamente, aquilo que denominaríamos de funções, e não estruturas morfológicas. Isso é obscurecido pelo fato de que o pensar do paciente é conduzido por meio de objetos concretos, tendendo, assim, a produzir, na mente sofisticada do analista, a impressão de que a preocupação do paciente é com a natureza do objeto concreto.

🔍 Investigação através da identificação projetiva

A natureza das funções que excitam a curiosidade do paciente é por ele investigada através da identificação projetiva. Seus próprios sentimentos, poderosos demais para serem contidos no interior de sua personalidade, estão entre essas funções. A identificação projetiva lhe possibilita investigar seus próprios sentimentos dentro de uma personalidade forte o suficiente para contê-los.

A negação do uso desse mecanismo, seja pela recusa da mãe em servir como receptáculo dos sentimentos do bebê, ou pelo ódio e inveja do paciente, que não pode permitir que a mãe exerça essa função, leva à destruição do elo de ligação entre o bebê e o seio e, consequentemente, a uma grave perturbação do impulso para ser curioso, do qual depende toda a aprendizagem. Está preparado, assim, o caminho para uma grave interrupção do desenvolvimento.

⚡ A vida emocional torna-se intolerável: Além disso, graças a uma negação do principal método de que dispõe o bebê para lidar com suas emoções demasiadamente poderosas, a condução da vida emocional, de qualquer forma um grave problema, torna-se intolerável. Em decorrência disto, os sentimentos de ódio voltam-se contra todas as emoções, inclusive o próprio ódio, e contra a realidade externa que os estimula. É um pequeno passo do ódio às emoções ao ódio à própria vida.
Como assinalei em meu artigo "Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não-psicótica" (Bion 1957), esse ódio redunda no recurso à identificação projetiva de todo o aparelho perceptivo, inclusive do pensamento embrionário que forma um elo de ligação entre as impressões sensoriais e a tomada de consciência. A tendência à excessiva identificação projetiva quando predominam as pulsões de morte é, assim, reforçada.

🎯 Síntese final — O ciclo da destruição do elo:

A dupla origem da perturbação (fator constitucional + falha ambiental) conduz a um círculo vicioso: a incapacidade de usar a identificação projetiva como método de comunicação e continência leva à destruição da curiosidade e da capacidade de aprender. O ódio, não podendo ser metabolizado, volta-se contra o próprio aparelho de pensar, fragmentando a capacidade de formar elos entre impressões sensoriais e consciência. O resultado é o predomínio de mecanismos psicóticos, nos quais a identificação projetiva excessiva torna-se o único recurso para lidar com a vida emocional — um recurso que, paradoxalmente, aprofunda a fragmentação e a perseguição.

“O ódio às emoções redunda no ódio à própria vida.” — A restauração, na análise, da capacidade de usar o analista como receptáculo para as identificações projetivas, sem que isso resulte em perseguição ou evacuação violenta, é o caminho para o restabelecimento do elo de ligação e, com ele, da possibilidade de pensamento e desenvolvimento.

“A negação do uso da identificação projetiva leva à destruição do elo de ligação entre o bebê e o seio e, consequentemente, a uma grave perturbação do impulso para ser curioso, do qual depende toda a aprendizagem.”
— W. R. Bion, Ataques ao Elo de Ligação

[pp. 106-107 da edição brasileira]

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