Negração de graus normais de identificação projetiva
Emprego o termo "elo de ligação" porque desejo examinar a relação do paciente com uma função, e não com o objeto que serve a uma dada função. Meu interesse não é só com relação ao seio, ou ao pênis, ou ao pensamento verbal, mas com sua função de prover um elo de ligação entre dois objetos.
Partirei do pressuposto de que existe um grau normal de identificação projetiva – sem definir os limites em que se situa a normalidade – e de que, associada à identificação projetiva, a identificação introjetiva constitui a base sobre a qual repousa o desenvolvimento normal.
Essa impressão deriva-se, em parte, de um aspecto difícil de interpretar na análise de um paciente, uma vez que não parecia, em momento algum, impor-se o bastante para que a interpretação se apoiasse em evidência convincente. Por toda a análise o paciente recorreu à identificação projetiva com uma persistência que sugeria que se tratava de um mecanismo de que jamais ele conseguira valer-se o suficiente. A análise propiciou-lhe uma oportunidade para o exercício de um mecanismo do qual havia sido privado.
Quando o paciente esforçava-se por se livrar dos temores de morte, sentidos como demasiado poderosos para que sua personalidade os contivesse, ele excindia seus temores e os colocava dentro de mim, com a idéia de que, se lhes fosse permitido repousar ali por tempo suficiente, minha psique os modificaria, podendo então ser reintrojetados sem perigo. Na ocasião que tenho em mente, o paciente sentiu, provavelmente por razões semelhantes às que dei no quinto exemplo – as nuvens de probabilidade –, que eu evacuei os seus sentimentos tão rapidamente que eles não se modificaram; ao contrário, tornaram-se mais dolorosos.
🧬 A reconstrução da experiência primitiva
Associações provenientes de um período da análise anterior à época da qual se retiraram esses exemplos revelavam uma intensidade crescente das emoções do paciente. Isso se originava no que ele sentia como sendo minha recusa em aceitar partes de sua personalidade. Em decorrência disso, ele esforçava-se por forçá-las para dentro de mim com crescente desespero e violência. Seu comportamento, se isolado do contexto da análise, poderia parecer uma expressão de agressão primária. Quanto mais violentas eram suas fantasias de identificação projetiva, mais amedrontado comigo ele ficava.
A situação analítica produziu em minha mente uma sensação de estar presenciando uma cena extremamente antiga. Senti que o paciente experimentara na infância uma mãe que zelosamente respondia às manifestações emocionais do bebê. Essa resposta zelosa continha um elemento de impaciente "não sei o que há com essa criança". Minha dedução foi de que a mãe, para compreender o que queria a criança, deveria ter tratado o choro do bebê como algo mais do que uma exigência de sua presença. Do ponto de vista do bebê, ela deveria ter recebido dentro de si, e desta forma experimentado, o medo de que a criança estivesse morrendo. Era esse medo que a criança não podia conter, e que se esforçava por excindir, juntamente com a parte da personalidade na qual se encontrava o mesmo, projetando-o para dentro da mãe.
Para alguns, essa reconstrução parecerá excessivamente fantasiosa. Para mim não parece forçada, e é a resposta a quem possa objetar que se coloca demasiada ênfase sobre a transferência, a ponto de se excluir a devida elucidação das recordações precoces.
🔄 O elo de ligação como identificação projetiva
Podemos observar na análise uma situação complexa. O paciente sente que lhe está sendo propiciada uma oportunidade que até então lhe havia sido negada. A pungência de sua privação torna-se, assim, mais aguda, da mesma forma que os sentimentos de ressentimento pela privação. A gratidão pela oportunidade coexiste ao lado da hostilidade ao analista como alguém que não compreenderá e recusará ao paciente o uso do único método de comunicação através do qual ele sente que pode fazer-se compreender. Assim, o elo de ligação entre paciente e analista, ou entre o bebê e o seio, é o mecanismo de identificação projetiva. Os ataques destrutivos a esse elo de ligação originam-se numa fonte externa ao paciente ou ao bebê, ou seja, no analista ou no seio. O resultado é a excessiva identificação projetiva por parte do paciente e uma deterioração de seus processos de desenvolvimento.
Não estou propondo que essa experiência seja a causa da perturbação do paciente. Esta encontra sua fonte principal na disposição inata do bebê, conforme descrevi em meu artigo "Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não-psicótica" (Bion 1957). Considero-a como um aspecto central do fator ambiental na produção da personalidade psicótica.
Persiste a gravidade porque o bebê psicótico está sobrecarregado de ódio e inveja da capacidade que a mãe tem de manter um estado mental confortável, embora experimentando os sentimentos do bebê. Isso foi claramente trazido por um paciente que insistia que eu devia passar por isso com ele, mas que se enchia de ódio quando sentia que eu era capaz de fazê-lo sem ter um colapso. Temos aqui um outro aspecto dos ataques destrutivos ao elo de ligação, sendo o elo de ligação a capacidade do analista de introjetar as identificações projetivas do paciente.
“O elo de ligação entre paciente e analista, ou entre o bebê e o seio, é o mecanismo de identificação projetiva. Os ataques destrutivos a esse elo originam-se numa fonte externa ao paciente.” — W. R. Bion
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