Etapas da Interconsulta Psiquiátrica
A interconsulta psiquiátrica para pacientes internados pode ser dividida em etapas sequenciais, mas interligadas. Cada uma exige do interconsultor flexibilidade, pragmatismo e capacidade de interlocução.
1. O pedido de interconsulta
O pedido deve partir do médico responsável (ou com sua anuência). A redação já fornece pistas valiosas sobre a situação clínica e institucional.
Exemplos de solicitações reais
2. Contato prévio com o médico assistente
Antes de ver o paciente, o interconsultor deve esclarecer:
- Por que a interconsulta foi solicitada?
- O que se espera do psiquiatra?
- O paciente sabe que será avaliado? Como reagiu?
- Qual a atitude básica do médico em relação ao paciente (distância ótima, proximidade excessiva ou distanciamento)?
Termos como "manipulador" ou "delirante" devem ser esclarecidos. O interconsultor também avalia se medidas preliminares são necessárias caso não possa atender imediatamente.
3. Entrevista ampliada
Além do paciente e do médico, inclui:
A equipe de enfermagem costuma ter informações valiosas e deve ser encorajada a compartilhá-las.
4. Leitura atenta do prontuário
Revisar anotações médicas e da enfermagem, evolução, exames laboratoriais. O interconsultor refaz o raciocínio clínico como um cirurgião que examina uma apendicite. A história pessoal geralmente exige complementação com a família.
5. Técnica de inversão da abordagem
Se o paciente foi rotulado como "psiquiátrico", o médico pode ter negligenciado causas orgânicas. O interconsultor deve inverter a lógica: "pode se tratar de um distúrbio orgânico não diagnosticado".
paciente perturbado → perturbador
paciente deprimido → deprimente
paciente ansioso → ansiogênico
paciente raivoso → enraivecedor
A abordagem psicológica adotada até então provavelmente falhou — o psiquiatra deve propor uma alternativa.
6. Avaliação do paciente
Exame completo (físico geral, neurológico, psíquico), com atenção especial às funções cognitivas. A entrevista combina questões abertas e fechadas, focando a crise.
7. Diagnóstico situacional
Vai além do diagnóstico psiquiátrico; avalia a "situação especial" do adoecer e do estar internado. O Quadro 8.2 resume suas dimensões.
Dimensões do diagnóstico situacional
Condição clínica (razão/tempo internação, resposta)
Transtorno mental comórbido
Relação médico-paciente (empatia, comunicação, confiança)
Personalidade e coping
Sistema de apoio social (família, trabalho, moradia)
Estressores psicossociais
8. Devolução da informação
"Comunicação é persuasão." O interconsultor deve traduzir a formulação diagnóstica para uma linguagem clara, sem jargões, e discutir o plano pessoalmente com o médico assistente e a equipe. Esferas de responsabilidade precisam ser definidas.
Em raros impasses (ex.: risco de suicídio e pressão por alta), o psiquiatra deve se opor energicamente para proteger o paciente, o que geralmente inibe condutas impulsivas por receio de implicações legais.
9. Manejo e grupos operativos
O foco pode ser alterar a forma como a equipe lida com o paciente. Exemplo: paciente desconfiado que recusa cirurgia → mostrar ao cirurgião o ciclo vicioso de irritação mútua.
10. Registro no prontuário
Anotações claras, concisas, com a razão específica da interconsulta. Evitar jargões e interpretações rebuscadas; descrever o comportamento relatado. Destacar recomendações em caso de risco. O prontuário é um documento legal.
11. Luta contra o "caráter dispensável"
O maior desafio: alguns médicos veem a interconsulta como secundária. Altas sem aviso ou não adesão às recomendações são frustrações comuns. O interconsultor deve tolerar a limitação de seu papel, focar no paciente e manter a comunicação. As recompensas virão com o tempo.
Os Dez Mandamentos da Interconsulta Eficaz
Goldman e colaboradores (1983) condensaram as boas práticas em dez orientações:
0 Comentários