🐦 Correntes Invisíveis
O cartum criado por Miran, entrelaçado com os versos de Caetano Veloso, comunica muito mais do que simples animais seguindo seus instintos primários. Ele revela, com traços singelos e diretos, as algemas que nos subjugam em nossos próprios anseios, em nossas carências, em nossas pequenas brutalidades cotidianas. Enquanto o pássaro permanece cativo, sonhando com a imensidão do céu, o gato — prisioneiro de seu impulso predatório — não percebe que também está sendo vigiado. O cão, por sua vez, espera, refém de sua própria voracidade, acreditando que o felino será seu próximo alimento.
Nesse retrato mudo, somos conduzidos a uma profunda reflexão acerca da fome e da sede que movem os seres humanos, acerca das ira que nos corroem, dos receios que nos acorrentam, dos ciclos de violência que perpetuamos sem sequer notar. Cada linha do desenho se converte em um espelho, evidenciando que, amiúde, ceifamos nossos próprios voos, devastamos nossas próprias árvores, negligenciamos nossa própria autonomia — tudo em nome de instintos que erroneamente confundimos com necessidades legítimas.
A jaula não restringe somente a ave. Ela restringe o olhar do gato, restringe a esperança do cão, restringe a nossa percepção sobre o que é existir e o que é experimentar a liberdade plena. Neste instante, percebemos que liberdade não é apenas o ato de voar, mas também a capacidade de abrir a porta que mantém reféns os nossos gestos automáticos e impensados.
No âmago, o cartum de Miran não discorre apenas sobre criaturas irracionais. Ele fala sobre nós mesmos, sobre o ciclo que aceitamos repetir mecanicamente, sobre a potência de romper as correntes invisíveis que limitam nossas ações, nossos ideais e nossas interações com o mundo. E talvez, ao contemplar este desenho, possamos indagar em silêncio: qual gaiola ainda estamos tolerando, e que pássaro dentro de nós aguarda, ainda, a coragem necessária para alçar voo?
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